“No início era o canteiro…
Muitas abóboras no canteiro…
Foram as abóboras crescendo
até que surge a Grande Abóbora!!!”
Era sol na lendária terra das taturanas. Todas se estendiam nos pátios para fotossintetizarem. Aguardavam ansiosas a estação das abóboras. Esta não demoraria a chegar e a colheita prometia ser farta. A plantação formava uma linda paisagem com morangas robustas. No entanto, nenhuma taturana notou que uma das abóboras crescia desproporcionalmente.
Foi então que, antes da colheita, a abóbora rompeu o solo com fúria, e levantando seu agigantado corpo de raiz, dirigiu-se à capital. O espanto foi geral. Não havia como as pacíficas e elétricas taturanas esconderem o medo perante a face tensa daquele ser medonho. Achando que seriam atacadas, as taturanas de briga logo se colocaram em posição de combate. Mas, ao contrário do que todas esperavam, a Grande Abóbora não usou da violência, apenas questionou onde estaria a biblioteca.
Novo espanto. Aquele ser monstruoso queria a biblioteca? O que faria lá? Iria ler ou destruir seus preciosos volumes? Seria o monstro um comedor de livros? Toda cautela era necessária frente àquela aberração.
Mas ao contrário do que todas pensaram, a Grande Abóbora queria ler! E leu. Leu muito, leu todos os livros dos grandes escritores, os grandes filósofos e os grandes clássicos. Lia com mais fervor que as intelectuais e curiosas taturanas.
Passado o tempo, a Grande Abóbora ganhou a admiração das taturanas, por sua intelectualidade e erudição. Demostrava inteligência e cultura, não era genial, mas determinada a acumular conhecimentos. Ficou, então, conhecida como Le Grand Abòboré.
Porém, tal alegria pouco durou, Le Grand Abòboré era ambiciosa e dominadora. Seu autoritarismo se manifestou com seu plano maquiavélico. Utilizou-se dos modernos laboratórios das taturanas e de suas avançadas pesquisas genéticas para criar suas iguais. Milhares de abóboras invadiram a cidade dominando as taturanas pela força.
O reinado de Le Grand Abòboré teve início. Vítimas de um bem articulado golpe, as taturanas perderam seu bem mais precioso: a liberdade. A dominação se fazia presente em todos os momentos. Seus pensamentos eram controlados e suas festas vigiadas. Todas eram forçadas a copiarem intermináveis ditados dos pensamentos aboborígenas. Sentiam-se como monges copistas, sem nenhuma possibilidade de criarem. Como se não bastasse a dominação que sofriam, eram constantemente saqueadas pelos abrutes comedores de carteira.
Algumas vezes, Le Grand Abòboré utilizava a velha fórmula do pão & circo para distraí-las de pensamentos “desagradáveis”. Eram constantes os agrados (nas ocasiões especiais, é claro) com chocolates e CD’s. As mais resignadas ganhavam outras lembrancinhas.
Na tentativa de destruírem o governo aboborígena, muitos mártires surgiram, outras tentaram fugir e foram vitimas dos fósseis falantes, mercenários contratados pelas abóboras para vigiarem as fronteiras. Eram comum algumas adoecerem em virtude da falta de liberdade. Os cérebros de tartaruga eram as que mais sofriam, pois não sabiam sequer como lutar.
O cenário não era nada animador. Mas as taturanas não se deixaram vencer facilmente, havia nelas algo de subversivo, que as impedia de aceitar qualquer espécie de comando.
Nos subterrâneos começaram a plantar cogumelos geneticamente alterados. Assim que atingiam o ponto ideal, os cogumelos saíam dos subterrâneos e espionavam as reuniões das abóboras gigantes. Muitos fingiam ajudar as grandes morangas, ganhando, assim, a confiança delas. Periodicamente, a conspiração dos Cogumelitas Silenciosos se reunia para trocar informações e traçar novos planos.
A estratégia das taturanas estava dando certo, pois de nada desconfiava a Grande Abóbora. Mas a paciência se esgotava e, em uma das reuniões dos cogumelitas, uma delas disse que já era hora de uma ação mais incisiva. Os prudentes cogumelos, que haviam sido geneticamente programados para serem ótimos estrategistas, responderam que a força militar das abóboras estava muito bem preparada para reagir a qualquer revolta. Seria necessário um único ataque: preciso e infalível. E só havia uma maneira de conseguí-lo: esperando pelo momento exato. De qualquer forma, precisariam se preparar muito bem para o confronto final. Foi então que muitas taturanas de briga, sob a liderança da taturana Tatu, se embrenharam na selva papelídica para esperarem o momento do ataque. Ficaram meses treinando e se alimentando de mexericas enquanto os cogumelos levavam adiante o plano de retomada do poder.
A revolta das taturanas crescia frente aos desmandos do povo aboborígena e das injustiças cometidas por Le Grand Abòboré. Todas exigiam mudanças drásticas nas leis e na condução das decisões. A insatisfação era generalizada, e a crise tomou corpo quando as abóboras começaram a discutir entre si, cada qual querendo mandar mais. Foi nesse momento estratégico que os cogumelos lançaram a praga do dinheiro voador e a do cheque borracha fazendo com que os abutres comedores de carteira mostrassem sua insatisfação.
O governo das abóboras enfrentava crise mortal, só continuando no poder pelo terror imposto. Era esse o momento! Houve o levante! As taturanas de briga invadiram a capital tomando as principais construções do governo aboborígena, como a Fonte Aboborada, símbolo de seu poder.
Todas as abóboras dominadoras foram presas nas gaiolas gigantes suspensas, mas, infelizmente, o abutre comedor de carteira, fiel conselheiro de Le Grand Abòboré, voou para os penhascos além das plantações. Lá foi, provavelmente escravizado pelas equações planadoras.
A Revolução Taturanista saía vitoriosa! E, para evitar qualquer tentativa de contra-revolução, na primeira manhã decidiram decapitar a Grande Abóbora.
Tatu e suas taturanas de confiança se dirigiram ao povo com os louros das abóboras nas mãos, enquanto Le Grand Abòboré, amarrada, encarava com medo a Guilhotina. Foi então que, no calor da liberdade, todas as taturanas clamaram:
- Ave Imperatruz Tatu!
Teve início o Imperu da Imperatruz Tatu, assessorada por suas ministremas eleitas. A primeira atitude do novo governo foi restaurar a liberdade das taturanas, e a segunda, é claro, promover uma grande festa, com doce de abóbora para todos!
A Esfinge
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Texto escrito em meados de 1997, sobre idéias surgidas entre 1994 e 1995. Ilustrações feitas a quatro mãos com Helena.


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