Estou pensando seriamente em mudar o nome do outro blog, o Impressões, para Garota Enxaqueca, ou Mulher Enxaqueca, ou Tolerância Zero, ou Dona Saraiva. Ando com os nervos à flor da pele. Além dos textos tipo "mensageira do apocalipse", era para postar lá este aqui também, mas mudei de idéia. Achei que ficaria melhor em "crônicas". Talvez sim, talvez não.
O fato é que não foram só as eleições, o STF vacilante, as bizarrices do judiciário, a apologia da ignorância, a ode a incompetência... Não é apenas a constatação de que neste país estudar e se esforçar não vale nada, que financeiramente vale mais a pena ser **** do que advogada, de que quanto mais se trabalha, menos se consegue. Foi o desabafo de uma médica, que até agora não entende porque mesmo com o IR descontado na fonte, ainda teve que pagar mais IR e tudo o que ela economizou o ano inteiro foi embora.
Essa é a triste realidade da classe média achatada brasileira: fazer faculdade, cursos, especializações, trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar durante anos e fio para nada mudar. Para conquistar nada. Aos pobres, uma pseudo educação meramente formal e a esmola oficial, que torna as pessoas cada vez mais dependentes dos programas sociais do governo e menos motivadas a se instruir, a trabalhar e crescer. E nem adiantaria, já que aos ricos, nenhum estímulo para investirem em atividades produtivas, nenhum estímulo para fazer bom uso de suas riquezas, excesso de burocracia para abrir e fechar empresas, contratar, demitir, fora o emaranhado de tributos e taxas e contribuições ininteligíveis. Sim, quem tem condições de criar empregos não encontra nenhum estímulo para isso. Parece que é pecado ter dinheiro e querer investir no setor produtivo, querer pagar salários bons. Das pessoas que conheço, dos membros da classe média achatada, só quem passa no concurso público que tem um pouco de sossego e consegue algum avanço no campo material. São raros os que vivem bem na iniciativa privada hoje, especialmente ao trabalhar em escritório de advocacia. Nada de férias, nada de 13º, nada de férias, nada de hora extra, nada de férias...
Fora isso, os aborrecimentos diários com as prestadoras de serviços - públicos ou não - que simplesmente ignoram a lei. Ora, se o até mesmo o judiciário faz o que quer, porque eles precisam se esforçar para cumprir o mínimo? Afinal, os incomodados que processem. Isso puderem esperar dois, três, quatro, cinco, seis anos por um resultado incerto. E puderem custear essa espera toda.
Enfim, estamos indo do nada ao lugar algum.
Então aquela pessoa que estava se esforçando para evoluir, ser mais serena e se aborrecer menos com as coisas mundanas e com problemas que ela sabe que não pode resolver tem uma recaída.
Talvez em razão da profissão, talvez por experiência ou talvez por vocação, eu me dei conta que tenho um radar para detectar protenciais problemas bem poderoso. Quando falo para um cliente ou amigo agir de um jeito e não de outro, e a pessoa faz o contrário e aquele problema que eu previ se concretiza, foi escolha da pessoa. Quando eu mesma ajo contrariamente aos meus instintos e faço alguma besteira conscientemente, também não tenho o direito de reclamar. Eu sabia que era problema, não sabia? Mas ainda não consigo ficar serena quando eu peço alguma providência em relação a minha pessoa e fazem o contrário, dizendo que está tudo bem.
Assim, como no epsódio do Seinfield no qual descobriram que dizer "serenidade já" apenas vai acumulando a raiva até que ela estoura, eu entendi isso hoje. Soltei os cachorros com o gerente do banco. Depois até me senti meio mal de ter falado daquele jeito, apesar de ter dito apenas verdades. Quando abri a conta, ou melhor, quando o escritório abriu a conta de todos, foram "oferecidos" certos serviços que eu não queria. O contrato, padrão, claro, chegou pronto dias antes do pagamento e fiquei numa saia justa daquelas. Se a chata não assinasse, ia atrapalhar tudo, inclusive o meu recebimento. Fiz perguntas cujas respostas não correspondiam à realidade.
- Mas eu não quero o cartão múltiplo, eu quero só débito. Assim é ruim, se o lojista passa errado não tenho como saber na hora. Já vi acontecer mais de uma vez.
- Ah, não se preocupe, para usar o crédito você tem que desbloquear o crédito, senão não passa.
- Não é assim, eu sei que não é. Eu quero cartão separado.
- Fique tranquila, não precisa se preocupar, são funções separadas, só o cartão é o mesmo.
Só faltava eu para assinar. "Isso não vai dar certo, farejo problema". Todos se levantam, continua só eu na sala. Assino. Livre e espontânea pressão, como se diz. E assim, o cartão múltiplo, que eu havia dito milhões de vezes que não queria, foi entregue. A função crédito, que eu também havia dito que não queria, foi desbloqueada à minha revelia assim que ativei o cartão para movimentar a conta corrente. Exatamente como o gerente disse que não aconteceria.
- Débito, por favor. Débito.
- Ok.
Olho o visor da maquininha. Aparece apenas o valor e o campo para colocar a senha. Não tenho como conferir se o garçon digitou certo.
- O senhor colocou débito, né?
- Ah, sim. Claro. Débito.
Pensei que ele seria muito idiota de errar, pois todo mundo tinha pago no débito naquele dia, e o meu foi o último. Se ele dinha digitado débito até aquele momento, não iria mandar pro crédito justo na minha vez. Digitei a senha.
- Seu comprovante.
- Ei! Aqui está escrito venda a crédito! Eu falei tanto pro senhor colocar no débito! Eu não quero pagar no crédito!!!
- Calma, Tati - fala minha amiga - você tem certeza de que foi no crédito?
Sim, tenho. Serenidade já.
Naquele momento, contra a minha vontade, a função crédito estava ativa, livre, leve e solta. Exatamente como o gerente do banco disse que não aconteceria. Conferi o extrato do banco, liguei. Sim, foi para o crédito. Pedi para cancelar o crédito.
- Desculpe, mas o seu cartão é múltiplo, não tenho como cancelar só a função crédito. Se eu cancelar cancela o cartão todo e a senhora não vai poder usar o débito também. Precisa primeiro pedir o cartão de débito.
Liguei direto na agência. Chamei o gerente. Aquele mesmo que tinha me dito que poderia ficar tranquila. Serenidade já.
- Eu disse que não queria esse cartão múltiplo. Me manda o cartão de débito.
- Ok, fiz o pedido. Deve chegar em duas semanas. Mais alguma coisa?
- Bem, o senhor disse que não tem mensalidade. Queria saber se o cartão de crédito não tem mensalidade mesmo.
- Ah, não. Não se preocupe. Seu cartão não tem mensalidade. Ele é vinculado à conta que o escritório abriu. Se quiser, pode ficar com o cartão sem custo algum.
- Tem certeza?
- Sim, tenho.
- Ok, vou esperar chegar o cartão de débito e vejo o que eu faço.
Três semanas depois chega uma correspondência do banco. Pensei que seria o cartão, mas não tem nada mais "duro" no envelope. É a cobrança do cartão de crédito.
" Aquele restaurante do garçon tapado que colocou crédito ao invés de débito - R$ XX,XX.
Mensalidade - R$ 7,50"
COMO É??? Mensalidade - R$ 7,50?
Eu li certo, vocês também. Ali estava a malfadada mensalidade, exatamente como o gerente do banco disse que não aconteceria. Serenidade já. Liguei para o banco no mesmo minuto. Quem me atendeu foi bem simpático, entendeu o ocorrido e, isto é incrível, não ficou empurrando serviço.
- Só tem um problema... Eu não tenho como cancelar seu cartão de crédito sem cancelar o de débito junto. Eu bem que gostaria, mas não posso.
- Dá pra ver se meu cartão de débito vai demorar? Eu falei pro gerente me mandar mas como até agora ele só me falou mentira, eu realmente não sei se ele pediu meu cartão ou não.
- Hum... Infelizmente eu não tenho acesso a sua conta corrente, é em outro setor.
- Ai, bem, isso não é culpa sua. Parece que fazem de propósito. Me transfere para lá, por favor.
- Está bem. Anote a ordem do menu, para a senhora não perder muito tempo.
Ah, bem que ele tentou. Para acessar o banco pelo telefone precisa de uma senha que não é nem a senha da internet nem a do cartão. Desliguei, pensei em resolver o assunto no dia seguinte. Serenidade já. Não deu. Passou dos limites. Qual o problema do gerente? Está escrito TROUXA na minha testa? Serenidade já. Ele sai falando qualquer coisa só pra empurrar produtos e serviços que você não quer ou ele não conhece o produto que te empurra? Ele é incompetente ou mentiroso mesmo? Ah, que ódio!
Serenidade já. Serenidade já. Serenidade já... Entrei no banco pela internet. Fiquei horas fuçando sem descobrir como cadastrar aquela senha para acessar pelo telefone. Entrei no fale conosco. Escrevi uma carta de reclamação. Cliquei em enviar. Não enviava. Nada. O botão de enviar não acionava. Mas quequé isso? Tentei dormir... Sempre que tentamos cancelar alguma coisa vem aquela ladainha. Ah, se ele viesse com aquela ladainha, ia mandar ele enfiar o crédito no... Serenidade já. Dormi.
No dia seguinte, liguei. Estaria a agência funcionando? Afinal os bancários entraram em greve. De novo. Todo mundo faz greve. Essa é a minha única inveja. Quer dizer, são duas coisas que eu realmente invejo. A mera possibilidade de se fazer greve e ser levado a sério. Sabe aquelas pessoas que dão conselhos que são ouvidos? Ou que fazem solicitações que são atendidas? Ah, é uma alegria sem igual quando isso acontece!
Primeira tentativa. Ramal ocupado. Segunda tentativa, idem. Deixei recado. Serenidade já. Nada. Terceira tentativa. Serenidade já. Quarta tentativa... Consegui falar com o gerente. Serenidade porcaria nenhuma.
- Se a senhora continuar falando assim não vou atendê-la e a senhora vai ter de se virar.
Como é? Mente para mim daquele jeito deslavado e ainda me ameaça? Minha colega passa do meu lado. Comento.
- Ele está bravo porque estou brava.
- Não estou bravo por causa disso. A senhora me chamou de incompetente.
- Eu disse que ou o senhor é incompetente porque não conhece os produtos que empurra ou um mentiroso.
- Eu disse que a mensalidade do banco era isenta até o final do ano.
- Nada disso, eu fui bem clara quando perguntei se o cartão tinha anuidade ou mensalidade. O senhor foi bem específico quando me disse que o cartão de crédito não tinha. Agora me manda meu cartão de débito e cancela o de crédito.
- Seu cartão de débito vai chegar em até 6 dias. O de crédito tem que ligar no outro setor.
- Eu que tenho que ligar?
- Sim, tem que cancelar lá. A senhora que tem que cancelar.
- Quer saber? Cancela tudo! Cancela também o tal do pacote de serviços.
- Não quer esperar o prazo de isenção? E tem as tarifas dos serviços, só inclui os que o Banco Central...
- Pra depois ficar ligando aí de novo? Não vou usar mais esse banco, só pra receber mesmo. Não quero esperar nada. Cancela agora. Cancela já!
Depois dessa, mais uma ligação, mais uma vez explicando porque queria cancelar o cartão, mais uma vez ouvindo que meu cartão de débito ia ser cancelado junto... Ah, ****-se o cartão de débito! Não vou pagar mensalidade para operadora de cartão, especialmente nesse caso, que fui enganada. DESCARADAMENTE ENGANADA. Posso ter sido grossa, mas não falei nenhuma mentira: se ele não mentiu dolosamente, não conhece os produtos do banco que trabalha. De qualquer jeito, passou mais de uma informação errada, só para me empurrar uma coisa que eu não queria. Só não fechei a conta porque me pagam por ela. Se não fosse dar o maior zebu aqui, eu fecharia. Ah, se fecharia. Já tinha fechado. Aliás, nem teria aberto.
Agora quero só ver se o cartão de débito chega mesmo no prazo informado. Acho que não chega não. Alguém duvida???
Um comentário:
Cartão chegou, mas o pacote de serviços... Ah, uma amiga recebeu a cobrança da mensalidade do cartão de crédito sem nunca ter utilizado.
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