quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Grama verdinha

Existe algo libertador em tarefas manuais. O tempo passa de uma forma diferente que em tarefas puramente intelectuais, apesar dessa exigir uma outra espécie de concentração. Nos trabalhos manuais, apesar de manter um foco, a mente acaba relaxando e as idéias vão surgindo. O cansaço é puramente físico. Exatamente aquele que ajuda a dormir de noite. Trabalhos intelectuais exigem outro tipo de concentração: não há relaxamento. O esgotamento mental é ótimo para uma tarde vagabundeando em frente à TV, mas péssimo para dormir.
O jardim pedia cuidados há tempos. A horta, idem. As simpáticas alfaces, hortelãs, salcinhas e cebolinhas dão lugar a um verdadeiro matagal. O limo tomou conta dos tijolos, o mangericão parecia uma árvore. No jardim, a grama mais alta do que devia disputava espaço com o mato que a invadia. Por isso que mato é mato. Ele não dá trégua. Cresce em qualquer fresta. Uma parede de pedra tem que ser supervisionada com frequência, ou vira rapidinho uma reserva florestal.
O jardinheiro tirou férias sem avisar. Ele não era muito assíduo nem rápido em seus afazeres. Sempre faltava alguma coisinha para ser concluída na próxima quinzena. Pediu aumento na sua diária. Feitas as contas, o aumento que ele pleiteava era de 25%. Como nem ele nem nós trabalhamos no Congresso Nacional tampouco somos senadores da República, não foi possível arcar com o pedido. Não que a União Federal possa efetivamente arcar com o aumento que nossos representantes se deram sob o silêncio conformado desta sociedade de ignorantes, mas o fato é que o aumento (deles, não o do jardineiro) veio e ficou.
Paciência, lá vamos nós podar, cortar, aparar, plantar. O limo precisa ser raspado. Aos poucos sai o verdinho para dar lugar àquele aspecto úmido escuro e, finalmente, a cor dos tijolos é revelada. Mato se arranca, sem dó. Mais de um tipo de folha invasora disputa espaço nas frestas do piso e onde deveriam estar as verduras e os temperos. Quase dois metros de distância de seu lugar original, no meio do caminho, sequer na terra preparada, hortelãs. Como elas foram parar alí?
O trabalho, que mais parece braçal do que manual pelo esforço exigido na expulsão dos invasores da horta, prossegue. Concentração para não arrancar o que de lá não deve sair. Cuidado com as minhocas e pequenas aranhas coloridas que aos poucos se revelam. Curiosamente dá muita vontade de escrever.
Mais de quatro horas para resolver míseros dois metros quadrados. Definitivamente é melhor não mudar de profissão.

Nenhum comentário: