Começou em 23 de maio de 1978, às 13h32. Eu nasci. Olhos arregalados, tentando entender o que estava acontecendo, o médico deu aquele famoso tapinha no meu bumbum, para que eu chorasse. Mas eu não chorei. Algo estranho entrou no meu nariz - AR? – e eu espirrei. E tenho espirrado desde então.
Conta minha mãe e minha avó que era desesperador ver um bebezinho lutando para respirar entre um espirro e outro. Foi ai que teve início o circuito “médicos de São Paulo”. Fui em otorrinolaringologista, alergista, homeopata, outro otorrino, mais um homeopata, acupunturista, pneumologista, homeopata outra vez, acupunturista de novo, outro homeopata, otorrino novamente, mais um homeopata... Operei as amígdalas, adenóide, desvio de septo, carne esponjosa e que mais poderia ter aqui dentro... Tomei antialérgicos, vacina, bolinhas, agulhadas, mais antialérgicos, alguns remédios bizarros, outras bolinhas, líquidos misteriosos, descongestionantes, pílulas de alho (argh), ervas misteriosas, corticóides. Ah, os corticóides. Fui depois de uma bomba dessas que fui parar novamente no homeopata, ainda ruim da rinite e inchada feito uma porquinha. E nada. O mais bizarro foi primeira cirurgia espiritual. Primeira, tiveram outras. O médium me olhou e fez uma cara que eu poderia traduzir como “xi....”. Xiii mesmo.
Esportes? Sempre. Natação, balé, tentativa de esportes coletivos como vôlei, handball, basquete, além é claro de esgrima, kung fu, e comparecimentos periódicos em academia. Nada. Alguém já tentou fazer alguma dessas coisas com o nariz escorrendo e espirrando? Sem condições. Além de ser nojento, em um dado momento não tem mais por onde entrar ar, não pelo nariz. O fôlego vai pra onde?
Ah, o fôlego... Natação é ótima para quem tem problemas respiratórios. Mas quem disse que eu tive alguma melhora? Pode ser que funcione com bronquite, asma, mas não com rinite. O cloro da piscina acaba até irritando um pouco o nariz. Mas o pior mesmo é aquele trajeto entre a piscina e o vestiário. Ah... Basta um leve sopro de ar um pouco menos quente que o vapor da piscina antes que encontrar o conforto do chuveiro quente para começar a sinfonia dos atchins. Não tem palavra melhor: é sinfonia mesmo.
A sinfonia também começa quando deixo o cabelo molhado, vou para a praia e sinto o cheiro de maresia no lençol recém lavado, pego um simpático gatinho no colo, sinto o cheiro de cigarro por perto, experimento um perfume novo, procuro algum livro num sebo, alguém usa lá no banheiro do outro lado do corredor algum fixador de cabelo...
A besta da rinite sempre volta. Pode deixar de me atormentar semanalmente, a cada 15 dias, pode passar algumas semanas na espreita, só esperando alguma coisa diferente acontecer: seja uma festa, um compromisso no trabalho, ou pode simplesmente resolver aparecer sem ser convidada. Aí lá vamos de novo para a farmácia. A farmácia natureba, a manipulação, os genéricos e os originais. As picadas, as bolinhas, os líquidos misteriosos em vidrinhos de manipulação.
Então, depois de anos nessa agonia, ainda não sei se devo continuar insistindo na vã esperança de um dia respirar em paz ou entrego os pontos de uma vez e deixo a meleca correr. Às vezes eu desisto, mas logo o desespero me leva novamente para algum consultório e algum tratamento que tem prazo de validade.
Todas as essas coisas que eu sentia tinham melhorado como último tratamento de homeopatia, mas era alarme falso. Essas últimas semanas tem sido especialmente torturantes. Esse nariz continua me atormentando. Atormentando, é essa a palavra.
A última semana foi especialmente cansativa, espirrando. Tive uma melhora no sábado à tarde. Fiquei bem, feliz. Fui dormir, quentinha. Acordei bem. Um pouco antes do almoço deu uma esfriada. Mal senti o friozinho já coloquei o casaco. Um minuto depois eu espirrei. E não parei até agora. Quer dizer, parei enquanto estava dormindo. Levantei, tomei café e recomecei. Não queria levantar, queria continuar dormindo. Enquanto eu durmo, eu não espirro. Mas não durmo direito. Durmo mal, muito mal. Difícil dormir bem quando o ar não entra pelo nariz. Aí, abre-se a boca, se começa a babar, e ela vai ficando seca. Não demora muito para o ar entrar e sair fazendo barulhos estranhos. Além de não ser filtrado, ainda tem aquele ditado: em boca fechada não entra mosquito. Perdi a conta de quantas vezes eu acordei tossindo, sentindo algo na garganta. Seria simplesmente a boca seca ou algum inseto desavisado que se achou que era um explorador de cavernas?
Mas não pára por aí. Tem mais! A rinite não é apenas um nariz que coça como se tivesse sido atacado por um formigueiro inteiro, mais sucessivos espirros que surgem com um ímpeto furioso deslocando o ar a milhares de kilômetros por hora, olhos vermelhos e irritados, cabeça pesada e aquele gotejamento nasal. É todo um modo de vida alterado e conseqüências em todo o seu corpo e hábitos.
Já tentei levar uma vida normal, mesmo espirrando. Não dá. Já fui em cinema, balada, festa, treino e até viagem espirrando. “Vai melhorar”, eu pensava. “Não se entregue. Vai melhorar. Isso é psicológico. Ignore que passa.” Passar? Parece que ia piorando. Parece não, ia piorando. Chegava um dado momento em que eu me perguntava o que fazia ali, porque insistia tanto, porque não ia para casa, deitava e ficava quietinha, esperando o nariz resolver me deixar em paz.
Não tenho carpete. Na verdade eu espirro só de olhar para um. Sou a pessoa mais anticarpete que existe. Quase não uso perfume, só em ocasiões especiais. E não pode ser qualquer um. Perfumes doces são os mais terríveis. Tenho inveja daquelas pessoas que tem coleção de perfumes e usam um a cada dia. Não dá, não posso. Já me acostumei a ficar sem. Já me acostumei a usar pouca maquiagem também, e evitar qualquer coisa muito cheirosa. Tenho que lavar todas as minhas roupas periodicamente. Não posso experimentar aquela blusa que minha mãe deixou guardada no armário por alguns meses. Fujo de cortinas. Bichinhos de pelúcia? Longe e constantemente na máquina de lavar. Tapetes? Só o necessário para não pisar no chão gelado. E fiquei com mania de limpeza. Mania de arrumação e limpeza. Arrumação porque ajuda na limpeza. Não posso ficar de cabelo molhado. Nunca, jamais. Esse é um luxo que eu só consegui desfrutar na Bahia. Tomar chuva? Ah, meu sonho é tomar chuva! Frio? Ando por aí que nem um cabide, levando agasalhos até no alto verão, pois se esfriar e eu sentir aquele arrepiozinho nas costas, já era. Gatos? Nem pensar. Não sei porque eu insisto em ter cachorro. Ah, já sei. Eu não senti diferença do tempo que fiquei sem cachorro. Sorte do cachorro.
Eu me olho no espelho e vejo a rinite. O nariz inchado, vermelho. Somando as duas vezes que coloquei aparelho (meus dentes estavam certinhos mas entortaram de novo), foram mais de dez anos para deixar todo mundo no lugar. Mas quando eu sorrio o lábio superior sobe e deixa à mostra toda a gengiva. Eu detesto. Uma amiga falou que acha lindo, que é um sorriso mais amplo, mais alegre. Sei não... Na verdade isso é defeito consequência da má respiração. Por quê? De tanto respirar pela boca ele não se desenvolveu corretamente! Cada vez que estou sorrindo e vou tirar foto eu paro e penso se não estou sorrindo demais. Eu tenho que me conter ao sorrir em fotos. Ah, tenho olheiras enormes. E não adianta dormir nem usar corretivo: elas não somem. Cremes anti-olheiras? Os mais eficazes tem vitamina K, que me dá alergia: parece que tomei uma surra. Pois é, não bastasse a rinite alérgica, tenho mais algumas alergias de contato na coleção. Bem, nesse caso, melhor as olheiras do que a surra, certo?
Ou seja, além de atrapalhar meu trabalho e minha vida social, ainda causa um insuperável dano estético.
Hoje meu chefe chegou, olhou para mim e disse: - De novo? Você tem que se tratar! Precisa ir no médico.
Eu tenho que me tratar, ir no médico. E o que eu faço além de ir em médicos? Olho para ele com o desanimo de quem não sabe mais para onde correr, e achou melhor ficar por aqui mesmo. As pessoas não acreditam que eu já fiz tanta coisa para sempre voltar à estaca zero.
Talvez este testemunho ajude a pessoas que sofrem o mesmo que eu a se sentirem menos sós no mundo. Talvez não. Talvez seja apenas mais uma reclamação de alguém que sente que a medicina tem assuntos mais importantes para pensar do que no alívio e na qualidade de vida dos alérgicos.
Um comentário:
São milhares de alérgicos...eu sou alérgica à picada de borrachudos, tem gente q é alérgico a algum alimento, assim vai...
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