Todo homem é um diabo
Não há mulher que o negue
Mas toda mulher procura
Um diabo que a carregue
Trova Franciscana
Hoje vou contar a história
Dessa nossa heroína
Mulher jovem, moça feita
E de educação fina
Sempre muito estudou
E sempre muito batalhou
Para conseguir emprego
E ganhar o seu dinheiro
Mas se tanto se empenhava
Em prover um pé-de-meia
Pouco tempo lhe restava
Para se fazer companheira
O tempo foi passando
E namorado não achava
Ou era uma enrascada
Ou então uma roubada
Alguns por lá ficaram
Apenas na cogitação
E outras vezes se meteu
Em uma bela confusão
Tentou pobre, tentou rico
Tentou até o mais metido
Tentou um corno barrigudo
E brocha além de tudo
Ela estava especialista
Em achar esquizofrenia
Homem lerdo, esquisito
Maluco, chato e burro!
Seus amigos e família
Não cessavam a criticá-la
E adjetivos acumulavam
Para terminar de endoidá-la
Mimada, estourada,
Intolerante, impaciente
Irritadinha, certinha, chatinha
Não há quem te agüente
E lá se foi nossa heroína
Para a sala da terapia
Tudo que fazia falhava
Ela estava era pirada
De tanto quebrar cabeça
Algumas coisas aprendeu
E não sem mais nem menos
A estribeira ela perdeu
Já sabia o que não era
Assim tão importante
E o que representava
A discussão constante
Na verdade ela sempre
Muito pouco discutia
Só quando realmente
Alguma coisa lhe agredia
Afinal, o que é problema?
Nada vale uma cena!
“Se quiser, estou inteira
Se não, tem quem me queira!”
Qual o filme, qual o lanche
Escolher o refrigerante?
Isso nunca foi para ela
O que tinha de importante
Mas sim o respeito, amor,
Carinho, fidelidade
Companheirismo, tranqüilidade,
Disposição, sinceridade.
E achou que seria feliz
Com seu novo namorado
Um gato virtual
Um poeta intelectual
Ele parecia carinhoso
E além de tudo, atencioso
Não vivia na balada
Preferia estar em casa
Ele não lhe abria portas
Como faria um cavalheiro
Mas também não era o tipo
Que gostava de um puteiro
Eram tantas qualidades
Nesse novo companheiro
Na sua vida, seu caráter
Que gostava dele inteiro
Mas havia uma coisinha
Aqui e ali que irritava
“Isso é normal”, ela pensava
Pois o resto compensava
Não tem ninguém perfeito
E o que desagradava
Não era assim tão importante
Então pouco reclamava
Procurava ficar calma
Argumentar sem se alterar
Pois achava uma besteira
Dar piti por uma bobeira
“Tudo bem, problema seu
Fique aí e não reclame
Se um dia aparecer
Alguém que me acompanhe”
Só que então ela se viu
Numa bela enrascada
Que fazer com um namorado
Que do nada evaporava?
Logo viu que a coisa toda
Vinha vindo muito errada
“Mas porquê”, ela pensava
“Se eu não lhe fiz nada?”
E foi tentando, mas em vão
Desatar aquele nó
O cara estava num estado
Que era de dar dó
À conversa não reagia
A insistência o irritava
E quando ela o questionava:
“Não sei nada, não sei nada!”
“Ai que homem mais confuso!”
Pensou ela intrigada
“O que passa na cabeça?
Ah, já sei, não passa nada!”
Depois de muito tempo
Finalmente discutiram
“Como assim, que absurdo!
Eu falei, você que é surdo!”
“Se estava bom até demais
E depois ficou monótono
A culpa é minha? Eu dizia
E você não reagia”
“Se você não se decide
E quer a mãozinha puxada
Isso é fato, filho grande,
Quem tem é elefante”
“E não sei por que reclamas
Quero paz, não agonia
Senão vira só briga
Um que bate, o outro revida”
Pensou ela inconformada
“É assim o meu amado?
Ele só está confuso
Ou não tem jeito, é pirado?”
Bem dizia a sua avó
Que o homem é um bicho besta
Se bonito dá trabalho,
E feio, dor de cabeça
Chegando no trabalho
Estava um bagaço só
Afogada em tristeza
Olhar vazio em sua mesa
O chefe então lhe perguntou
Tudo bem, algum problema?
Você quase não trabalhou
E ela contou o seu dilema
Foi então que bem atento
Ele a tudo isso ouviu
E no fim da narrativa
Umas férias sugeriu
E pensando “nesta terra
Não achei nada que preste”
Foi que ela fez as malas
E voou para Budapeste.
***
Pequena poesia em trovinhas elaborada a partir de versinhos e idéias soltas, dedicada às mulheres em geral, às minhas amigas em especial e à Marcy em particular. Porque ela não está aqui, é uma ilusão, ela está em Budapeste.
Um comentário:
Tati
Para mim não é preciso que você diga nada sobre suas atividades.
Entro neste nosso mundo virtual e tudo o que você deixa feito em mil e duzentos lugares, me parece obra de 29 expeditos escritores, pensadores, observadores e nem sei mais o que!
Deus a conserve com todo esse seu dinamismo por muitos anos.
Gostei desta sua “Pequena trova para a mulher contemporânea”.
Ali dentro, muitas verdades. A gente torce pelo amor e eu dou sorte, porque já tenho duas amigas que aqui nos chats da Internet encontraram seus amores e se casaram com eles. Mas, de fato, o meio é um pouco maluco...
Minha linda, continue. Vou acompanhá-la enquanto der. Enquanto do alto das minhas sete dezenas de vida, encontrar forças para isso.
Grande beijo e todo meu carinho.
Parabéns!
Aidinha
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