quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Pensamentos por segundo

Foi graças a ela (ou a elas, no caso) que fui começar o check-up forçado. Primeiro o exame que foi adiado contra a minha vontade. Alguns dias antes ligaram do laboratório porque a máquina tinha quebrado. Ok, marcamos outro dia... Mas já estava muito perto de embarcar para o outro lado do mundo e resolvi deixar para  volta. Estava já deixando para lá, mas talvez isso tivesse algo a ver com alguma delas então parei de adiar. Marquei e já aproveitei para fazer mais alguns que estavam marcados. Um deles eu consegui a façanha de perder a guia, e estou com vergonha de voltar no médico. Tem coisas que não gostamos, mas devemos fazer. Quem disse que é só homem que fica adiando a ida aos médicos?
Acabei tão cedo o anterior que estava disponível muito antes do horário, e como o outro paciente não tinha aparecido ainda... Em quinze minutos estaria livre. Entrei no tubo toda travada para que não mexesse de jeito nenhum. Difícil não mexer de jeito nenhum. Quando ouvir o barulho, não engula. Só não engula ou não respire também? Respirar pode, relaxada e com calma. Difícil respirar com calma. Fechei os olhos para não ficar fixando a visão nas luzes do teto tão próximas a mim. O barulho, forte, lembra cenas de ficção científica. Ora me remetia ao "alarme da auto destruição" acionado, ora ao clima de Alien, o oitavo passageiro. Nessa hora que o cérebro quer pensar. Você quer relaxar sem se mexer e o cérebro quer pensar. Cada som era uma cena, cada expiração (controlada para não causar algum movimento involuntário), uma ideia. Achei que fosse sair de lá e direto escrever um roteiro de filme de viagem espacial. Ou ir para um rave. Ah, com certeza quem ouve música eletrônica não deve se sentir desconfortável lá dentro. Altamente musicável. Fiquei com vontade de rir. Um dos sons poderia ser traduzido pela onomatopeia "tot tot tot tot tot", lembrei do Toty, imaginei uma música para ele. Eletrônica, claro. Toty Toty Toty Toty... Fiquei com mais vontade de rir ainda. Comecei a me achar maluca. Quem tem vontade de rir meio de uma ressonância magnética.
Parei o pensamento e tentei desviá-lo para outra coisa. Hora de pensar na vida? Está bem. Listei mentalmente tudo o que tinha para fazer. Seria isso mesmo? Sim, seria. A decisão foi tomada, agora é hora de colocar em prática. Sou em quem tomou a decisão. Já vivi o suficiente da escolha anterior para saber que aquela via se esgotou. Aprendi o que eu precisava aprender, não tudo o que se há para aprender, mas tudo o que eu precisava aprender. Agora é hora de seguir o meu rumo. A notícia do dia 17 me deu a certeza de que eu estou no caminho certo. E é justamente essa certeza que está me deixando tão travada e impossibilitada de fazer qualquer coisa da opção antiga. Não dá mais, não consigo mais, estou em outro ritmo, meu cérebro está funcionando em outra frequência. Não posso afirmar com certeza o que acontecerá daqui em diante, mas o dia 17 trouxe uma nova esperança. Sim, é possível. Mas isso só e possível agora. Antes não seria a mesma coisa. Uma vez eu escrevi que era contra quem nunca tivesse advogado fazer qualquer coisa da vida. "QUALQUER COISA". Certo. Qualquer coisa no mundo jurídico que se queira fazer vai ser melhor feito se antes a pessoa viu e sentiu "a vida como ela é", e isso se aprende advogando. Mas é advogar no contencioso, com a barriga no balcão. Eu era chamada de "operária do direito". Termo mais apropriado não vejo. Depois de passar por isso a pessoa vai fazer qualquer outra coisa com outra visão, outra maturidade. Antes eu não conseguia seguir este rumo simplesmente por que eu não estava pronta. Não tinha certeza se ele era possível e não estava pronta. Teria feito mais besteira do que já fiz. Quando lembro o que pensava no passado, concluo: "Meu Deus, como eu era ingênua".
Fim do exame. Foram os 15 minutos com mais pensamentos por segundo que eu tive nos últimos meses.

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