Nem sempre é fácil escrever. Alguns dias parecem perfeitos: só você e a tela em branco e as palavras nela deslizam como margarina no pão quentinho de manhã. São esses os melhores dias. Outras vezes as ideias aparecem, mas as palavras não. E não adianta pegar papel e lápis, nem papel e caneta, nem azul, nem preta, nem colorida, nem giz, nem nanquim nem abrir o word, nem abrir o editor do blog, nem alguma das velhas cadernetas, nem aquela nova, que fica a postos na bolsa, para registrar da lista de compras do mercado aos pensamentos mais complexos. Também acontece de ficar dias sem nenhum pensamento registrável, somente as coisas comuns do dia a dia e do trabalho, antes de advocacia, hoje de pesquisas jurídicas. O mais recorrente, no entanto, é ter o assunto, as palavras, os argumentos se organizando no cérebro, mas não conseguir sentar e escrever. Seja por alguma auto censura, por achar que o assunto é muito polêmico ou não entender apropriado estender demais a postura "garota enxaqueca", seja por falta de tempo, ou impossibilidade física mesmo. Essa última razão é a mais dolorida - em ambos os sentidos. São aqueles mesmos problemas que vem e vão e se agravam. E a frustração de não estar fazendo o que mais gosta de fazer. O que dá sentido a tudo isso.
E o mais estranho é que, apesar disso ser completamente sem sentido, cada palavra não escrita parece uma enorme perda de tempo. Por mais que seja algo banal, é preciso escrever. Por mais que não seja apropriado, é preciso escrever. Por mais que seja polêmico, é preciso escrever. Por mais que seja incorreto, é preciso escrever. Por mais que seja incompleto, é preciso escrever. Por mais que seja óbvio, é preciso escrever. Por mais que seja confuso, é preciso escrever. Por mais que seja ilógico, é preciso escrever. Por mais que seja altamente subjetivo, é preciso escrever. Por mais que seja técnico, é preciso escrever. Por mais que seja instintivo, é preciso escrever. Isso desde sempre. O que vim fazer aqui é uma pergunta que já teve várias respostas, e todas elas serviram na época em que foram ditas, mas uma delas jamais mudou, por mais que as outras variassem. Vim escrever.
Quando penso nisso, e quando lembro do tanto que escrevi e aqui publiquei, e do tanto que se perdeu, pergunto se realmente há alguma outra coisa além disso. Do que perdi, confesso que sinto falta. Foi numa dessas limpezas de mudanças que fui me livrando de rabiscos. O que mais me faz falta é aquela velha agenda. Não montei, como minhas amigas na época, aquele diário fofo, de recortes e colagens de fotos e tíquetes de cinema, teatro e show. Foi uma agenda filosófica. Queria lembrar exatamente o que escrevia. A memória guarda resquícios de uma grande salada feita de imperativos categóricos com dialética. Algumas ideias que, salvo engano, acabaram sendo retomadas agora, depois de tantas voltas que fazem parte do amadurecimento intelectual. Não fosse essa porção subversiva, teria vindo diretamente até o ponto que estou. Mas me questionei. E fico feliz de tê-lo feito.
Mesmo impossibilitada de concluir novos textos para publicação em um futuro próximo, mas semeando para empreitadas a médio prazo, fico triste de não ter escrito tanto quanto acho que deveria ter feito na semana passada. Nem poderia, já que estão amadurecendo. E tive de eleger prioridades. Prioridades que também envolvem escrever. E poupar um pouco a parte física, para escrever mais depois. Não deixa de ser frustrante para quem já fez tanta coisa, ter de parar e reeleger as prioridades. Escrever é preciso. E vou deixando os textos no forninho, como os pãezinhos, para a margarina deslizar fácil.
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