Sentado na poltrona olhava o porta-retrato. Era uma das primeiras fotos que tirara dela, um pouco depois que se conheceram. A sala estava escura, mal iluminada por um velho abajur na mesinha de canto. A campainha toca e ele hesita antes de levantar para antender.
- Posso entrar?
Ele não disse nada, apenas se afastou da porta para lhe dar espaço. Era sua melhor amiga, que aparecia sem avisar. Ela nunca avisava - não era necessário. Sem perguntar nada, ela entrou e sentou no sofa sem falar nada. Ele fechou a porta e sentou-se novamente na poltrona, olhando para a mesa de centro, sem focar em nenhum objeto especifico. Sua melhor amiga pegou o porta retrato nas mãos e perguntou:
- Melhor?
- Não. - ele respondeu secamente. - Quer um copo d'água?
- Depois.
Seguiu-se um silêncio que durou alguns minutos, até que ele o quebrou dizendo, quase como em um suspiro:
- Por mais que eu tenha me preparado para isso....
- Eu sei.
- Se fosse ela no meu lugar - continuou - não suportaria a dor, sentiria desespero, quebraria esse porta retratos na parede, faria um escândalo... Morreria em seguida, por não ter mais sentido a vida... Ou a passaria em uma busca sem sentido por mim....
- Eu sei.
- O que eu faço? - perguntou apoiando o cotovelo nos joelhos, e enterrando o rosto nas mãos, escondendo-se.
- Faça o que deve ser feito.
- E o que é?
- Aceito aquela água agora.
Ele se levantou e foi até a cozinha. Voltou trazendo uma bandeja com dois copos e uma jarra. Ela se serviu, tomou toda a água de uma vez, sem respirar, colocou-a na mesa e prosseguiu:
- O que você vai fazer é seguir com a sua vida. Esse período de luto não vai durar para sempre. Então você continuara vivo, como escolheu fazer. Vai dar significado à sua existência, lutar por ela, por sua vida e por tudo o que você representa e pode trazer de bom a si mesmo e aos outros. Não vai ficar esperando reviver o que viveu. Isso pode acontecer ou não. Se não fizer isso e se entregar, estará assinando seu atestado de óbito e impedindo qualquer possibilidade de reencontrá-la - pelo menos terá de aguardar alguma outra vida, em um futuro distante demais para ser calculado. Mas não viva com essa esperança. Você disse para mim da última vez que nos encontramos, logo que isso aconteceu, que escolhia continuar, que queria continuar. Disse bem claramente que não existe por causa dela nem para ela, apesar desse encontro de vocês ter lhe dado um novo significado, aquele por qual procurou toda a sua existência. E que esse significado ainda existe. Não disse?
- Sim. Com ou sem ela, quero existir, quero continuar. Encontrei um significado e um objetivo. Uma razão maior do que ela, que a sublimou. Um sonho possível.
- Então você sabe o que tem de fazer, independente do que eu diga.
- Sei. Sempre soube. Mas gosto quando me diz.
Ela sorriu e, colocando mais um pouco de água em seu copo, questionou:
- Então qual a dúvida?
- O que fazer com a falta que eu sinto dela. - desabafou.
- Sabe que é impossivel conviver com ela muito tempo. Até que aguentou bem. Suportou muito bem toda aquele emoção, as reações físicas que ela provoca, as boas e as más. E, na verdade, nunca gostei muito dela, apesar de saber o que ela significa e justamente por isso. Ela não gosta quando você me escuta. Quer dizer, não gostava... E com isso você fica mais sucetivel a fazer besteira. De qualquer forma... - fez uma pausa pensativa - Durou mais do que o costume, não? Talvez por isso que esteja tão difícil...
- Sim. Acho que é isso. As pessoas não sabem nada. Dizem que ela se transforma em mim, ou que ela sou eu. Acredita? As pessoas acham que ela sou eu! - ria-se - Mas que nada! Existem muitos de mim por aí. E muitos dela também. Nem sempre nos encontramos, mas quando nos encontramos, e perfeito. Ela que me deu uma nova vida, ela que me dá uma nova vida, e depois me deixa, como me deixou, para seguir sozinho, se eu quiser. E eu quero! E como quero!
- Porque você não e causa nem consequência dela, e você tem uma escolha... E é uma escolha. Uma semente que brota por uma causa, existe por uma força maior que nós, e se concretiza por uma escolha. E porque escolheu prosseguir?
- Por todas as coisas boas que me despertaram, e que a trouxeram até mim. E todos os sonhos que tivemos juntos, e o que vivemos, de bom e de ruim, pelo companheirismo que aprendi, pela recompensa, pelos erros e pelo perdão merecido. E por tudo o que ainda quero viver.
- Então esta decidido. Você não precisa mais de mim.
Ela se levantou e foi até a porta, esperando ele abrir. Ele a seguiu, mas antes de virar a fechadura, afirmou:
- Sempre precisarei de você.
Ela saiu sem se despedir. Não precisava se despedir. Esse é o tipo de amizade que transende o tempo, o espaço, as convenções, a formalidade. Essa parceria nunca se encerra. Ou ambos desapareceriam, sem deixar vestígios.
Ele não disse nada, apenas se afastou da porta para lhe dar espaço. Era sua melhor amiga, que aparecia sem avisar. Ela nunca avisava - não era necessário. Sem perguntar nada, ela entrou e sentou no sofa sem falar nada. Ele fechou a porta e sentou-se novamente na poltrona, olhando para a mesa de centro, sem focar em nenhum objeto especifico. Sua melhor amiga pegou o porta retrato nas mãos e perguntou:
- Melhor?
- Não. - ele respondeu secamente. - Quer um copo d'água?
- Depois.
Seguiu-se um silêncio que durou alguns minutos, até que ele o quebrou dizendo, quase como em um suspiro:
- Por mais que eu tenha me preparado para isso....
- Eu sei.
- Se fosse ela no meu lugar - continuou - não suportaria a dor, sentiria desespero, quebraria esse porta retratos na parede, faria um escândalo... Morreria em seguida, por não ter mais sentido a vida... Ou a passaria em uma busca sem sentido por mim....
- Eu sei.
- O que eu faço? - perguntou apoiando o cotovelo nos joelhos, e enterrando o rosto nas mãos, escondendo-se.
- Faça o que deve ser feito.
- E o que é?
- Aceito aquela água agora.
Ele se levantou e foi até a cozinha. Voltou trazendo uma bandeja com dois copos e uma jarra. Ela se serviu, tomou toda a água de uma vez, sem respirar, colocou-a na mesa e prosseguiu:
- O que você vai fazer é seguir com a sua vida. Esse período de luto não vai durar para sempre. Então você continuara vivo, como escolheu fazer. Vai dar significado à sua existência, lutar por ela, por sua vida e por tudo o que você representa e pode trazer de bom a si mesmo e aos outros. Não vai ficar esperando reviver o que viveu. Isso pode acontecer ou não. Se não fizer isso e se entregar, estará assinando seu atestado de óbito e impedindo qualquer possibilidade de reencontrá-la - pelo menos terá de aguardar alguma outra vida, em um futuro distante demais para ser calculado. Mas não viva com essa esperança. Você disse para mim da última vez que nos encontramos, logo que isso aconteceu, que escolhia continuar, que queria continuar. Disse bem claramente que não existe por causa dela nem para ela, apesar desse encontro de vocês ter lhe dado um novo significado, aquele por qual procurou toda a sua existência. E que esse significado ainda existe. Não disse?
- Sim. Com ou sem ela, quero existir, quero continuar. Encontrei um significado e um objetivo. Uma razão maior do que ela, que a sublimou. Um sonho possível.
- Então você sabe o que tem de fazer, independente do que eu diga.
- Sei. Sempre soube. Mas gosto quando me diz.
Ela sorriu e, colocando mais um pouco de água em seu copo, questionou:
- Então qual a dúvida?
- O que fazer com a falta que eu sinto dela. - desabafou.
- Sabe que é impossivel conviver com ela muito tempo. Até que aguentou bem. Suportou muito bem toda aquele emoção, as reações físicas que ela provoca, as boas e as más. E, na verdade, nunca gostei muito dela, apesar de saber o que ela significa e justamente por isso. Ela não gosta quando você me escuta. Quer dizer, não gostava... E com isso você fica mais sucetivel a fazer besteira. De qualquer forma... - fez uma pausa pensativa - Durou mais do que o costume, não? Talvez por isso que esteja tão difícil...
- Sim. Acho que é isso. As pessoas não sabem nada. Dizem que ela se transforma em mim, ou que ela sou eu. Acredita? As pessoas acham que ela sou eu! - ria-se - Mas que nada! Existem muitos de mim por aí. E muitos dela também. Nem sempre nos encontramos, mas quando nos encontramos, e perfeito. Ela que me deu uma nova vida, ela que me dá uma nova vida, e depois me deixa, como me deixou, para seguir sozinho, se eu quiser. E eu quero! E como quero!
- Porque você não e causa nem consequência dela, e você tem uma escolha... E é uma escolha. Uma semente que brota por uma causa, existe por uma força maior que nós, e se concretiza por uma escolha. E porque escolheu prosseguir?
- Por todas as coisas boas que me despertaram, e que a trouxeram até mim. E todos os sonhos que tivemos juntos, e o que vivemos, de bom e de ruim, pelo companheirismo que aprendi, pela recompensa, pelos erros e pelo perdão merecido. E por tudo o que ainda quero viver.
- Então esta decidido. Você não precisa mais de mim.
Ela se levantou e foi até a porta, esperando ele abrir. Ele a seguiu, mas antes de virar a fechadura, afirmou:
- Sempre precisarei de você.
Ela saiu sem se despedir. Não precisava se despedir. Esse é o tipo de amizade que transende o tempo, o espaço, as convenções, a formalidade. Essa parceria nunca se encerra. Ou ambos desapareceriam, sem deixar vestígios.
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