Começa com sessões de fotos. Alguém resolve colocar o bebê em cima da moto e bater uma foto. Ao lado, um cachorro. Motos e cachorros. Cachorros e motos. O cachorro, que na verdade é uma cadela, não é o primeiro que conheceu. Antes dessa fox paulistinha saltitando havia uma fila brasileira, que se deixava montar. Aí vai, o bebê montando em cachorros e em motos.
A cachorrinha acaba fugindo, e, antes que outro cachorro viesse lhe fazer companhia, apenas as motos restavam. Quase que diariamente uma buzina era ouvida antes que o portão se abrisse e, pelo quintal, entrasse a moto. Às vezes essa criança, que não era mais um bebê, subia na moto para passear pelo bairro. Ia sentada em cima do tanque de combustível, segurando no guidão como se dirigisse, esticada e hipnotizada pelo velocímetro e o conta-giros. Chega um momento, no entanto, em que não cabe mais em cima do tanque, e muda para o garupa. Não tem a mesma graça, mas vai agarrada ao seu avô para não cair.
Ele caiu. Algumas vezes. Não com ela. Disso nem se recorda, mas sim dos comentários de sua avó que lembra dos tombos, dos arranhões, das faixas, dos ossos quebrados e do medo que ficava. Mas isso não o impediu de continuar a guiar, e a correr.
Não que a criança, hoje não mais criança, se lembre das corridas de moto. Lembra mais dos carros, da escola, de Interlagos, dos Fords estacionados no depósito atrás do salão de festas, com vários pneus empilhados em um canto. Quantas vezes não entrou nos carros e fingiu que corria? E o cheiro? Até hoje, basta entrar em uma borracharia para que se remeta à infância. Bizarro. Normalmente outras coisas remetem à infância, e não o cheiro de pneus empilhados.
O novo cachorro estava sempre sujo de graxa. Estopa era o apelido daquele poodle que pedigree tinha por ironia do destino. Vivia enfiado embaixo dos carros estacionados no quintal. Aliás, todo espaço livre da casa era estacionamento. Estacionamento de carros antigos, novos, lançamentos que eram testados cuidadosamente para depois ter as resenhas e reportagens publicadas. As motos também continuavam entrando. Indo e vindo, testadas, trocadas, arrumadas. Eram dispostas no quintal para fotos também. Às vezes, na praia, se formava fila para andar na garupa.Cachorros, motos e carros.
Ela parecia uma sombra. Se ele ia nadar, ela ia nadar, se ia fazer ginástica, ia fazer ginástica, se ia ouvir música, ia ouvir música, se ia ler, ia ler, se ia tocar piano, também queria tocar piano, se ia desenhar, também queria desenhar. Se ia andar de moto, ia andar de moto. Ou melhor, ia, agora, na garupa da moto. Se ele perguntou se ela queria andar de kart, lá foi ela andar de kart. Para ler perguntava antes o quê. Ou então ficava abismada que ele lia tão rápido. Começou a ler rápido também. Leituras, desenhos, música, esportes, cachorros, carros e motos...
Mas tudo tem um fim. Não pode ir de novo andar de kart com ele e nem no kartódromo. Não foi ele quem lhe ensinou a dirigir. Não foi ele quem lhe ensinou a guiar, pelo pouco tempo que fez isso. Aliás, disso sequer se recorda. Não é a mesma coisa, nunca será a mesma coisa. E assim, algumas coisas foram se perdendo. Muito por não ter com quem partilhar, ou quem incentivasse de verdade. E a memória foi cuidando de deixar algumas sensações adormecidas. Os cachorros estão aí, a música está aí, as leituras e a escrita estão aí, o desenho está aí, a curiosidade está aí. Os carros estão aí, sem tanto cuidado ou zelo, mas estão aí. O caráter e o exemplo estão aí.
Mas a adrenalina, as curvas, o vento, a liberdade. Isso foi se perdendo, ficando distante, secundário...
Até lhe refrescarem a memória.

Um comentário:
pois é...esse texto me tocou muito.
primeiro porque sei tudo o que teu avô representou e representa pra vc.
segundo porque me remete, ainda, à minha infância...eu era muito grudada no meu avô materno e no paterno também...doces lembranças da infância, saudade dormente e que, de repente, sem mais, desperta.
terceiro (como amiga coruja que sou, piegas mesmo) pelo fato de saber que vc também é fruto do que relatou ai, rapidamente mas de maneira muito especial. consigo visualizar vc, bem novinha, de olhos arregalados para as novidades, para cada movimento de seu avô.
tudo está ai de fato, enquanto herança: cachorros, música, leituras, escrita, curiosidade, carros.
adrenalina, curvas, vento, liberdade, que na realidade não se perderam, estavam ai o tempo todo em sua essência, um alguém especial e singular para vc passou a lhe refrescar a memória.
e o mais importante para mim, como amiga e admiradora: o caráter e o exemplo estão aí.
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