Endless Jorney
Capítulo 3
Domingo, 2 de abril de 2002. Mariana havia dito ao pai e à amiga que iria passar o dia em um sítio com seus amigos, sem entrar em maiores detalhes. Acordou cedo e fez questão que seu pai tomasse o café da manhã com ela. Apesar de estar sem fome, não recusou a rabanada que ele fez. Já não tinha mais tanta certeza se queria entrar nessa loucura, ao mesmo tempo, não acreditava que fosse real a existência dessa misteriosa máquina do tempo. Esperava chegar no sítio e não encontrar nada, ou achar alguma bugiganga qualquer que só fizesse barulho e fumaça. Então ela viraria para seus amigos e diria: “ Não disse que essas besteiras não passam de ficção científica?”
Enquanto verificava se não havia esquecido de colocar nada na mochila, afagava o cachorro. Vestiu uma calça verde escura, botas, blusa preta de manga comprida, um casaquinho de moletom flanelado e colocou a cruz de prata que havia herdado de sua mãe. Levava alguma roupa, o binóculo e outras coisas que poderiam ser úteis. No último minuto resolveu pegar um caderno, já que havia espaço e a mochila não pesava.
Despediu-se de seu pai e de Aquiles e entrou no carro. Aquela era uma típica manhã de outono, fria, e as ruas estavam vazias. Chegou milagrosamente às oito em ponto no apartamento dos meninos e, ao interfonar, eles pediram que ela subisse.
Não precisou tocar a campainha porque Eduardo já estava na porta, apenas esperando o elevador abrir. Estavam prontos. Gabriel usava uma calça preta e botas pesadas, com o cadarço desamarrado, o que foi logo percebido por Mariana, e um moletom cinza escuro. Eduardo vestia uma roupa que costumava usar para fazer trilha. Era uma calça interessante, com um zíper que a transformava em bermuda. Marcelo estava acordado, sem entender aquela viagem repentina, mas não insistiu nas explicações. Despediu-se deles e só voltou para a cama quando, pela janela, os viu entrar no carro.
***
No banco ao lado de Mariana, sentou Gabriel, e Eduardo esparramou-se no banco de trás, sob protesto. Ela virou-se e jogou o mapa em cima dele, dizendo que ele parasse de reclamar e fosse útil, indicando o caminho. Ele abriu o mapa e disse para pegarem a Raposo Tavares.
— Depois de Cotia tem que entrar a direita. Pelo jeito que está indicado, desconfio que seja um lugar bem esburacado...
Ligaram o som e Gabriel começou a rir quando lembrou o nome da música que tocava, Traveller in Time, do Blind Guardian. Mariana também ria: “Você precisa ouvir as outras que gravei depois dessa...”
A viajem foi tranqüila até a hora que entraram na estrada de terra. Estava completamente esburacada e em alguns trechos foram simplesmente engolidos pelo mato.
— Isso que é esconder alguma coisa...— reclamava Eduardo, chacoalhando no banco traseiro.
***
No meio do caminho encontraram uma bifurcação sem nenhuma indicação no mapa. Ficaram em dúvida sobre que direção tomar e, após alguma discussão, resolveram tomar a direção errada. A estrada subitamente acabou e Mariana teve de fazer uma manobra difícil no meio das árvores. Olhavam o indicador de combustível e o mapa, se questionando como fariam para reabastecer na volta.
Finalmente, após uma viagem acidentada, chegaram na tal chácara e Gabriel desceu para abrir o portão. Não havia ninguém lá, mas o mato estava cortado, sinal de que não estava totalmente abandonado e que o professor deveria fazer mais do que experiências lá, ou pagava alguém para olhar o lugar, o que era mais provável.
Entraram e estacionaram onde provavelmente era a garagem. Trancaram o carro e foram até a sede, abriram a porta e entraram. Na sala tinham alguns móveis velhos, foram para a cozinha e viram uma geladeira desligada e um fogão à lenha. Dos quartos, apenas um tinha cama com colchão, no outro, só um beliche e um armário.
— Não vejo nada aqui, deve ter alguma coisa lá fora. — supôs Eduardo.
Saíram e vasculharam o terreno, mas só encontraram uma churrasqueira empoeirada e um galinheiro. Vários patos andavam pela chácara, indo e voltando para o lago artificial. Também encontraram uma criação de coelhos, mas nada que pudesse indicar ser aquele um lugar de experiências secretas.
— É... — suspirou Mariana. — Acho que o seu professor estava delirando.
— Talvez a gente não tenha olhado direito... Vamos voltar e vasculhar de novo.
Ao entrarem na casa, Gabriel começou a tirar os móveis de lugar, levantou o sofá, olhou e resmungou: “Ele é cheio de truques.” Empurrou a geladeira, entrou no boxe do banheiro tateando os azulejos, foi para um quarto e tirou o colchão, a cama e a cômoda de lugar. Foi para o outro de empurrou o beliche para o outro lado, não achou nada, colocou de volta. Eduardo ajudava e Mariana ia atrás deles, incrédula. Eduardo olhou para o quarto e disse ter tido a sensação de que ele era maior. Então Gabriel foi até o armário e abriu as duas portas.
— É o armário, só pode ser o armário... — disse tateando o fundo.
— Não é o armário, não. — disse Eduardo ao encostar na parede do lado do armário. — Esta parede é estranha.
Então os dois começaram a examinar toda a extensão dela, até encontrar uma falha na entre o que parecia ser um armário embutido e a parede. Puxaram e o armário saiu.
— Eu disse que era o armário!
Assim que tiraram tudo do lugar, encontraram uma porta de metal escondida. Não tinha fechadura, apenas um teclado com números.
— Legal, precisamos de um código! — exclamou Mariana.
— Deve ter alguma coisa nas anotações que ele fez, esperem aqui que vou buscá-las. — deduziu Gabriel, saindo do quarto.
Voltou com uma pasta enorme, com tudo o que havia encontrado, e começou a folhear aqueles papéis mais uma vez. Mariana sugeriu que olhasse no diário, e ele encontrou várias equações complexas na última folha. Resolveu-as e digitou os resultados na ordem em que apareciam. A porta abriu.
— Fácil, fácil.
A porta dava direto para uma escada, Gabriel entrou seguido por Eduardo e Mariana, acenderam as luzes e viram alguns degraus que davam para algo parecido com a entrada de um túnel, feito de uma liga metálica que não conseguiram identificar a olho nu. Ao final do túnel, encontraram um balcão com objetos estranhos, que só Gabriel sabia dizer o que eram, e um grande painel, cheio de controles, monitores e outras coisas que pareciam ser tiradas de algum cenário.
— Eu estou dentro de um filme... — delirou Mariana.
— Como ele fez isso? — perguntava-se Eduardo.
— Aqui é o paraíso! — animou-se Gabriel.
Olhavam tudo mas sem mexer em nada, Gabriel explicava o que eram algumas coisas e para que serviam. Depois de um tempo conhecendo o laboratório, voltaram-se para o que devia ser a máquina do tempo. Gabriel admirava-a, mas Mariana o trouxe de volta à realidade:
— Tudo muito lindo, muito futurista, mas... funciona?
Depois de pensar um pouco Gabriel resolveu repetir um teste que havia encontrado nas anotações que tinha achado escondidas no fundo falso do armário e pediu para Eduardo ir buscar um coelho. Depois de um tempo, ele voltou com um pato.
— Eu pedi um coelho.
— Eu sei, mas esses bichinhos são rápidos, o pato foi mais fácil de pegar.
Então Gabriel pôs um relógio na pata da ave, colocou-a na máquina do tempo e fechou a porta de vidro. Era um vidro pesado, grosso como aqueles encontrados nos grandes aquários. Seguiu as instruções e programou para levar o pato para uma hora adiante. Assim que deu o comando, abriu-se um o túnel de uma luz fortíssima, azulada, seguida de um barulho estranho, o pato agitava as asas e parecia que havia uma ventania lá dentro. Ouviu-se um estrondo e ele sumiu, assim como as luzes e o barulho.
— Meu Deus!!! Cadê o pato?
— Daqui a uma hora descobriremos. Vamos subir, trazer nossas coisas para dentro da casa e fechar tudo. Vamos dar uma limpada na cozinha também. Mais cedo ou mais tarde teremos que comer alguma coisa. — decidiu Gabriel.
E foi o que fizeram, depois de ajeitarem tudo, voltaram para o laboratório, Ainda faltavam dez minutos. Foram dez longos minutos. Pontualmente na hora programada, recomeçaram as luzes e o barulho. Ouviram um estrondo e o pato apareceu, agitava as assas com as penas arrepiadas. Os três admiravam a cena estarrecidos. Gabriel quebrou o silêncio ao lembrar do relógio. Assim que abriram a máquina, o pato saiu correndo. Tiveram que cercá-lo para tirar o relógio dele. Eduardo foi o primeiro a verificar as horas:
— CARAMBA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Vejam!!!
O relógio marcava exatamente a hora que colocaram o pato na máquina, ou seja uma hora atrás, quer dizer, com alguns minutos a mais devido à caça ao pato, e funcionava perfeitamente. Gabriel não cabia em si de espanto, excitação e medo. Com uma alegria descontrolada, repetia: “Funciona! Funciona! Funciona!”
Mariana mal conseguia formular uma frase, apenas sussurrava para si que estava sonhando, não era real, que devia ter algum alucinógeno no ar. Eduardo a sacudiu:
— A máquina do tempo funciona! Não é nenhum delírio nem sonho!
Dos três, ele era o único lúcido. Espantado, mas lúcido. Mariana até aquele momento não havia acreditado na possibilidade, e ver que aquilo a deixou em estado de choque. Gabriel estava na empolgação de um cientista perante a maior descoberta no novo século. Então, Eduardo chamou seus amigos para o andar de cima, dizendo que agora deveriam sentar e pensar com calma no que poderia ser feito. Pegou o pato e subiu as escadas, sendo seguido pelos outros.
***
Sentaram-se na mesa da cozinha, Eduardo abriu a porta e soltou o pato, trancando-a em seguida. Só eles sabiam que a máquina do tempo existia e funcionava, ao menos os testes que até aquela hora foram feitos deram certo. Gabriel queria entrar nela e testá-la ele mesmo. Eduardo tentava persuadi-lo a esperar a volta do Dr. Ivan. No caminhão, até conversaram e planejaram fazer uma “viagem no tempo”, mas imaginar, sonhar e brincar com a idéia é bem diferente de estar prestes a realizar um feito como esse, tornar possível o impossível. Também discutiam se deveriam contar para mais alguém ou se o segredo deveria permanecer apenas entre eles.
— Certo, a máquina do tempo consegue levar para o futuro, os testes feitos também levavam vários coelhos e patos ao mesmo tempo. Mas ainda não foram feitos outros testes, que só um ser humano poderia fazer. Ir e voltar. O mecanismo da volta está pronto e esperando. — explicou Gabriel. — E só há uma coisa a fazer agora. Eu vou testar a máquina.
— Mas se algo der errado, nem eu nem a Mari poderemos fazer nada. Se é para testá-la hoje, é melhor que eu vá e que vocês fiquem aqui.
— Ninguém vai entrar naquela coisa. — disse Mariana. — Ok, o pato viajou para o futuro, mas ainda não sabemos tudo sobre ela, e muito menos o que pode acontecer se alguém voltar ao passado. Aliás, como vamos ao passado? Pensa nisso. Digamos que a gente resolva, sei lá, fazer mais um teste e mandar o pato para o passado. Quando a gente ver o pato chegando do futuro não iríamos saber que no futuro teríamos decidido mandar o pato para o passado, certo? E aí, se a gente ficar olhando o pato e não mandar ele para o passado no futuro que, da primeira vez, enviamos ao passado, ele nunca poderá ter vindo do futuro, entende? E se alguém for para o passado, estará influenciando no futuro, porque no passado, não estaria lá. Se já esteve, é porque já foi. E aí? É tudo pré-determinado? E o livre-arbítrio? E...
- Mari, isto já está suficientemente confuso sem você filosofando. Mandamos o pato para uma hora adiante e ele veio. Funcionou. Pronto. Os testes estão dando resultado. O que acontece durante a viagem, ou se for feita uma viagem, não sabemos mesmo. – interrompeu Eduardo.
- Sim, e só existe um meio de descobrir! – completou Gabriel levantando-se.
- Não entendo o que está acontecendo, Gabriel! – ralhou Mariana - Sempre era você que tinha de me segurar para não agir por impulso, correr menos, brigar menos... E agora você está prestes a fazer uma loucura dessas!?!
— Estou decidido. Vou entrar lá e nada que vocês digam pode me fazer mudar de idéia, esse é o único jeito de responder as nossas perguntas.
Dito isso, seguiu para o laboratório, mas seus amigos o seguraram.
— Sozinho você não entra lá. — impôs Mariana — Já que não tem como fazer você mudar de idéia, eu vou também.
— E me deixar aqui, preocupado com vocês dois? Nós todos vamos. — completou Eduardo. — Mas tem um detalhe: pra onde, ou melhor, para quando?
Entreolharam-se, ninguém tinha pensado nisso, nem mesmo Gabriel. Poderiam ir para qualquer lugar em qualquer época, e escolher um destino desses não é muito fácil. Cada um teve uma idéia diferente, mas Mariana deu uma sugestão que agradou a todos:
— E se fôssemos ver o vôo do 14 bis?
Estava resolvido, iriam para o campo de Bagatelle, em Paris, em 23 do outubro de 1906. Arrumaram tudo, pegaram suas mochilas e desceram para o laboratório. Gabriel pegou os comandos para voltarem, semelhantes a um relógio de pulso, e os colocou. Havia mais de um daquele tipo e ele colocou os outros nos seus amigos.
— Estou usando o principal, este é o guia, que direciona a viajem e nos mantém ligados à “sede”. De acordo com as instruções é prudente que todos que usarem a máquina estejam com um desses. Como a máquina do tempo usa muita energia, não é possível voltar logo em seguida. É preciso que ela esteja “recarregada”. Ou seja, este mostrador deverá estar inteiro aceso, em nos três. Alguma pergunta?
— Não sei se um dia vou conseguir entender essa máquina direito, de qualquer forma, vou confiar em você. Vamos logo com isso antes que eu me arrependa. — disse Eduardo.
Gabriel acertou todos os comandos, colocou sua mochila e abriu a porta de vidro da máquina do tempo. Eduardo respirou fundo e entrou, tremendo por dentro, nunca havia dado um passo com tanta dificuldade. Assim que Mariana pegou sua mochila e olhou para a porta aberta com Eduardo dentro e Gabriel esperando-a, sentiu medo e falou a primeira coisa que veio na sua cabeça:
— Vamos entrar os três de uma vez? Tem certeza que é seguro?
— Por que essa pergunta?
— Não sei... Ninguém aí viu “ A Mosca”? De repente dá um problema daquele tipo...
Ambos desataram a rir... “A mosca”? Só a Mariana para pensar uma coisa dessas.
— Não se preocupe. — disse Gabriel segurando o riso. — O Dr. Ivan testou transportar patos e coelhos juntos para o futuro e não apareceu nenhum patoelho, ou coelhato...
Assim que eles param de rir, ela entrou na máquina e esperou que Gabriel fechasse a porta, mas antes que ele a acionasse, ainda fez mais um comentário:
— Vocês ficam rindo... Mas nenhum ser humano jamais fez o que estamos fazendo agora, não se pode saber as conseqüências.
Gabriel apertou o botão que ficava na parte interna da máquina do tempo, surgiu o túnel de luz forte, azulada, vindo de todas as direções, seguida de um som ensurdecedor, vento de todas as direções e por fim, um estrondo. Não havia mais como voltar.
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