O que é arte?
Não importa o que dizem os dicionários e as enciclopédias. Arte é expressão. Expressão da vida, dos sonhos, das angústias, das belezas e das mazelas humanas, da natureza, da realidade, dos sentimentos, dos delírios, das percepções, de si mesmo, dos outros, da arte alheia. Arte é a expressão sensorial da filosofia, das questões que afligem o ser humano em relação à sua própria existência.
Literatura é arte. Criar combinações de palavras e frases em torno de uma idéia, de uma estética e até mesmo de um som é uma arte. Arte está na alma. A alma clama por manifestar-se!
A inspiração está em tudo. E quem escreve tem o poder sobre sua criatura literária. Ela pode ser o que se quiser que ela seja. E o leitor pode fazer dela o que bem entender que se deva.
O escritor pode narrar um fato real em primeira pessoa:
"Eu estava sentada no metrô quando ao meu lado se sentou um moço de cerca de 30 anos, moreno, e que ostentava um curioso relógio cor-de-rosa."
O escritor pode narrar um fato real em terceira pessoa:
"Ela estava sentada no metrô quando um moço de cerca de 30 anos, moreno, sentou-se ao lado dela. Qual não foi a surpresa quando viu que ele usava um relógio cor-de-rosa."
O escritor pode narrar um fato imaginário em primeira pessoa, cuja idéia surgiu de um fato real:
"Eu estava sentada no metrô lendo o jornal quando um moço que aparentava 30 anos, bonitão, moreno, de olhos claros pediu licença e sentou do meu lado. Tirei os olhos do jornal e vi que ele usava um relógio cor-de-rosa. O moço logo notou que eu reparei, mas pareceu não se importar com a minha estranheza. Ao contrário, ele me olhou de volta e, tirando uma carteira também rosa do bolso, me entregou o flyer de uma balada GLS que prometia agitar o circuito underground da cidade."
O escritor pode narrar um fato imaginário em terceira pessoa, a partir de um fato real:
"Ela sentava distraída no banco do metrô quando um homem moreno, aparentando 30 anos, olhos claros e usando um terno azul marinho sentou-se ao lado dela e deixou à mostra seu relógio cor-de-rosa. Ao perceber a cena ela não conseguiu disfarçar a estranheza que o acessório lhe causou. Notando isso, ele logo sacou de sua carteira um flyer de uma nova balada do circuito underground da cidade que prometia revolucionar a noite paulista."
O escritor pode se colocar dentro de uma cena qualquer, cotidiana, sem participar ativamente dela, como uma testemunha:
"Eu olhava as manchetes dos jornais expostos na banca quando passou por mim um senhor com um cachorro na coleira, latindo desesperadamente para o motoboy que tentava estacionar a moto."
Ou pode narrar, como testemunha, uma cena não tão comum assim:
"Eu olhava as manchetes dos jornais expostos na banca quando passou por mim um senhor com um gato na coleira. O felino ia quieto, tal qual um cão treinado, até que cismou com uma moça que vinha cheia de sacolas da vendinha."
O escritor pode inventar uma realidade paralela que nenhuma relação tem com a sua vida, e mudar para que personalidade quiser, até mesmo de sexo:
"Eu já o tinha enfrentado antes e o nocauteado no início do segundo round. Mas agora era diferente. Eu estava mais lento, enferrujado pelo tempo que passei fora do ringue. Ele ganhou experiência e me encarava com fúria pela derrota anterior."
O escritor pode fazer uma reflexão, surgida na sua mente por qualquer coisa que tenha visto, lido, acontecido ou imaginado. O escritor pode encher seus textos de descrições, dando a exata medida de seu planeta imaginário ou deixar uma lacuna quanto aos detalhes desse mundo invisível, mas tão plausível e concreto quanto o dito real. Pode dar ou tirar sentido. O escritor pode ser controlador ou deixar o verbo fluir desvairado.
O escritor tem total domínio sob o seu mundo, sem precisar estabelecer qualquer relação entre o que ele cria e o que as pessoas esperam dele. Pode partir da realidade ou ignorá-la. Pode se inteirar de um assunto a fim de criar um mundo mais plausível. Não importa. O escritor é o senhor de seu universo e, não raro, sequer se recordar do que o inspirou.
Mas existe uma coisa que o escritor não controla, um pequeno detalhe: o leitor. Ah! O escritor não controla o leitor!
O leitor! Esse ser indomável que irá interpretar as suas palavras... Esse ser que pode dar os mais variados sentidos à mais clara das frases... O que ele não fará com as mensagens subliminares que o escritor embute, conscientemente ou não, em seus textos? O leitor não poderá nunca mergulhar na mente do escritor para entender o processo de criação: ele irá dar seu próprio testemunho ao texto. Dará sua própria versão. Irá distorcer o sentido, mudar a entonação com a qual as palavras e as frases foram se formando na mente do escritor. O leitor tem seu próprio mundo, suas próprias expectativas, seus medos, suas experiências, seus sonhos, suas neuras e tudo isso será mesclado ao texto. O texto de cada leitor é único. Ele sempre incorporará novos significados na leitura. Não importa o que o escritor faça, ele jamais terá um leitor dócil e submisso, que irá absorver suas mensagens da mesma forma que ele as liberou no mundo.
Um comentário:
O legal é observar o que cada leitor interpreta do que escrevemos...sai cada idéia,rs!!
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