sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Textos esdrúxulos de idéias esquisitas que nunca deveriam ter saído da gaveta - parte 2

Endless jorney
Capítulo 2


Eduardo e Mariana fitavam Gabriel esperando que ele dissesse alguma coisa. Eduardo já tinha lido uma página do diário do Dr. Ivan e sabia qual o assunto que estaria atormentando seu amigo. Já Mariana nem imaginava do que se tratava, apenas vira eles discutindo. Gabriel olhou bem para eles, eram seus melhores amigos. Conhecera Mariana ainda no colégio, ela o ajudava sempre que precisava, fosse um carro quebrado, dicas com namoradas, mudar para o apartamento quando seus pais resolveram morar em Santos... Eduardo ele conheceu por acaso, quando procurava com quem dividir o apartamento. Mas a amizade logo surgiu e tinham muitas afinidades. Sabia que ele era honesto e confiável, além de ter uma tranqüilidade rara. Mas, por mais que gostasse e confiasse em seus amigos, será que poderia revelar a eles o “segredo absoluto” de seu orientador?

De alguma forma, o destino, as circunstâncias, ou seja lá como se pudesse chamar aquela situação, havia decidido por ele. Deveria contar, mesmo que não acreditassem, pois ele mesmo não acreditava. Quebrou o silêncio chamando-os para a sala. Não havia perigo de Marcelo aparecer porque toda quinta-feira ele costumava jantar com a namorada e chegava sempre tarde.

— Meu professor, o Dr. Ivan começou a desenvolver uma teoria, meio que por acaso. Na verdade ele gostava muito de ficção científica e sempre conversava com seus alunos sobre coisas que antes eram impossíveis se tornaram possíveis. De como a criatividade e a imaginação humana concretizaram verdadeiras loucuras, coisas inadmissíveis. E também dizia que várias das coisas que hoje consideramos impossíveis, inviáveis, apenas boas nos filmes e nos livros, poderiam se tornar real. E não é preciso quebrar as leis da natureza para isso, basta descobrir, investigar...

— Pensando nisso, — continuou— ele começou a desenvolver uma teoria, que pareceu para ele apenas um passatempo, um desafio à sua imaginação, mas que começou a tomar forma, ficando cada vez mais real. Ele acabou se convencendo que funcionaria e resolveu partir para a prática. Guardou dinheiro, comprou materiais, algumas coisas ele adquiriu de forma não tão... lícita, mas de qualquer forma, sempre sobras de experiências, e montou um laboratório no seu sítio.

“Então, começou a construir, fazer testes... e acabou por descobrir uma maneira de concretizar tudo o que havia idealizado. Não foi fácil fazer o que ele fez, mas ele chegou a construir o que queria. Fez vários testes, que estão detalhadamente descritos, mas nenhum deles é conclusivo, nenhum deles prova definitivamente que seu invento funcionou. O problema é que não tem uma maneira de fazer isso sem envolver outras pessoas, sem que seu segredo não seja revelado.”

“Semana passada, na sexta, quando eu saía da faculdade, encontrei com ele no estacionamento e ele me entregou suas anotações. Como ele me pediu segredo absoluto, não contei nada. Não foi fácil decifrar tudo aquilo e, quando eu percebi do que se tratava, fui procurá-lo, mas ele disse para a secretária que foi para o exterior, deixou a chave do seu armário comigo e foi assim que eu tive acesso a todas as informações sobre a experiência.”

— Mas o que ele inventou afinal? — perguntou Mariana.

— Não adianta eu dizer, você não vai acreditar.

— Vai deixá-la curiosa? Vamos, diga qual é essa invenção maravilhosa. — pressionou Eduardo.

— É uma... máquina do tempo.

— Uma o quê? — riu-se Mariana.— Tá... Alguma coisa a ver com meteorologia, né?

— Não, uma máquina para viajar no tempo.

— Ha ha ha ha ha ha. — gargalhou Mariana.— Tá bom, fale sério Ga, o que ele inventou? — insistiu.

— Eu estou falando sério, Mari. Meu professor descobriu como viajar no tempo.

— Claro! E elefante voa! Grilo fala, pica-pau dirige carro... Por favor Gabriel, você não espera que eu acredite nisso.

— Mari, eu li no diário desse Dr. Ivan “máquina do tempo”. — esclareceu Eduardo.— Foi nessa hora que Gabriel chegou e começamos a brigar. Se tem alguém pregando uma peça ou completamente louco, é o Dr. Ivan, e não nosso amigo.

— Eu também achava loucura. Aliás, é loucura. Não tem nenhum cientista vivo nesse planeta que acreditaria na viabilidade de se construir essa máquina, é inviável! A única teoria plausível, que se conhece por aí como “buraco de minhoca” exigiria uma quantidade tal de energia para ser viabilizada que seria impossível a sua construção. Pelo menos não com o que sabemos hoje, não com a nossa tecnologia... Ou era, não sei... De alguma forma, parece que ele conseguiu. Se vocês lessem a teoria dele, se vissem suas anotações, se estudassem suas idéias como eu estudei...

— ... íamos ficar doidos que nem você está ficando. — completou Mariana.— ainda acho que você e seu professor estão delirando. E o Edu também, por apoiar essa sua idéia maluca.

— Eu não estou apoiando a idéia maluca dele. Apenas contei o que aconteceu.

— Por favor, acreditem ou não, não comentem com ninguém. Vocês não ouviram nada, não sabem de nada.

— Se me perguntarem, eu nem estive aqui. — disse Mariana, levantando-se. — Conversamos quando vocês dois não estiverem mais delirando.

Mariana fechou a porta atrás de si e ambos ficaram parados na sala, olhando para o chão. Eduardo levantou-se, foi até a janela e perguntou:

— Você tem certeza que seu professor não pirou de vez e realmente inventou isso? É tão... irreal, maluco... parece roteiro de filme de “B”, história em quadrinhos, sei lá, essas coisas.

— A teoria que ele desenvolveu é bem palpável, e parte dos conceitos da física já conhecidos. Ele conseguiu encontrar um meio de se mover no espaço-tempo a partir de... Como direi, uma espécie de atalho que ele conseguiu detectar... O que me atormenta é o fato dele dizer ter concretizado a tal máquina.

— Será que ele a fez mesmo? Será que essa idéia não o deixou um pouco... confuso e ele começou a inventar coisas? Pode muito bem ser alguma espécie de delírio.

— Talvez, mas eu não acredito. Você não o conhece. É mais fácil ele ficar louco por conseguir realizá-la, não o contrário. — disse Gabriel.

— E o que você pretende fazer, agora que... bem, que conhece essa história?

— Não sei, Edu, definitivamente, eu não sei.

***

Eduardo acordou antes de tocar o despertador, levantou da cama e foi até o banheiro sem acender a luz. Olhou-se no espelho e viu que seus olhos estavam vermelhos por ter dormido pouco. Lavou o rosto e penteou o cabelo. Foi até a cozinha e encontrou Gabriel, com o cabelo castanho claro, enrolados até os ombros, completamente despenteado. Tinha os olhos bem escuros, e olhava para o nada, sentado, com uma xícara de leite puro na sua frente. Era mais baixo que Eduardo, e magrelo. Segurava a lata de Nescafé na mão esquerda e uma colher na direita.

— Vai tomar isso? — perguntou Eduardo.

— Hã? Ah... é você... não dormi direito...

— Eu também não.

Marcelo apareceu na cozinha de pijama, bocejando:

— Já acordados? O que deu em vocês dois? Me passa esse troço aí, Gabriel. Preciso de muita cafeína para agüentar o dia hoje.

— Hoje é o júri? — questionou Eduardo, mudando o assunto.

— É... é hoje. Eu queria poder adiar, não fazer essa porcaria nunca. Vai ser terrível. Não sei porque meu chefe me passou esse caso. Justo esse caso! Meu cliente confessou que matou o vizinho porque ele “o enchia”! E qualificado. Tem umas 15 testemunhas... Nem sei porque aceitamos esse caso maluco. Sinto que não dá pra fazer muita coisa...

Eduardo e Gabriel não estavam exatamente prestando atenção na história de Marcelo, mas a última coisa que poderiam fazer era deixar que ele percebesse a preocupação deles. Já tinha gente demais sabendo da possibilidade de se existir uma máquina do tempo fora dos livros e filmes de ficção.

***

Às duas da tarde, quando Eduardo estava no hospital, Mariana aparece perguntando por ele. Após pedir que um colega o substituísse, foram até o estacionamento e entraram no carro dela para poder conversar sem ouvidos curiosos por perto.

— Escuta Edu, ontem eu fui embora meio de repente... não foi muito educado, eu sei... mas, você acha que o Ga está...? — e girou o dedo na cabeça, indicando que ele estaria maluco.

— Eu pensei nisso. Na verdade, não paro de pensar. Mas acho que quem está realmente maluco é o professor dele. Nosso amigo embarcou na loucura do outro. E o problema é que o Gabriel insiste em dizer que a teoria é inovadora e convincente. Mas acho que no fundo ele não sabe se deve acreditar no que nos contou ontem.

— Bem, eu não acredito nessa. Não sou tão anta em física, senão nem teria acabado a faculdade, apesar de não ter entrado tão a fundo nesse tipo de assunto. Pensei até na hipótese de estar meio desatualizada, ou melhor, muito desatualizada. O fato é que o Gabriel ficou muito perturbado e ele não é nenhum bocó crédulo. Então... Bem, se essa... coisa é verdade, só há um jeito de descobrir. Ver a tal da máquina.

— A máquina do tempo...

— Não dá nem pra falar isso sem começar a rir. — resmungou Mariana.— Parece que estou no meio de um desenho animado japonês... Se eu me escutar falando isso acho que morro de gargalhar.

— Você não é a única que tem vontade de rir... — disse e olhou para ela, não contendo o riso. Então os dois começaram a rir dentro do carro.

– Está bem, chega desse assunto por hora. Preciso ir trabalhar. A gente conversa mais tarde. — interrompeu Eduardo.

— Eu também preciso trabalhar... Mas antes... — disse ela colocando as mãos no bolso do casaco e tirando uns convites. — A chata da minha prima, a Larissa, fez umas reservas pra balada sei-lá-por-quê, e pediu que eu te entregasse uns convites. São cinco: um pra você, um pro Ga, pra Carol, pro Marcelo e pra Carla. Eu ia entregar ontem, mas acabei esquecendo. É pra ir hoje. Ela conhece alguém desse lugar aí. Você conhece?

— Já ouvi falar, mas nunca fui. Você sabe que não costumo sair pra dançar.

— Pois ela adora. Vai se acostumando com a vida boêmia dela... — disse irônica ao despedir-se.

***

Depois que saiu da redação, Mariana foi treinar esgrima. O campeonato estava próximo e o treinador exigia presença de todos o alunos, mesmo que fosse só para bater na almofada. Por isso que, ao chegar em casa, não jantou e atirou-se na cama, exausta. Seu pai subiu as escadas até seu quarto acompanhado pelo cachorro, levando um pratinho e perguntou se ela não queria comer nada. O pastor alemão sentou-se do lado da cama e lambeu-lhe a cara.

— Não... Eu quero dormir.... Mas ainda tem essa porcaria que a Larissa inventou pra hoje...

— A Vanessa acabou de ligar dizendo que viria te buscar às dez e meia. Não vá dormir demais.

— Hum hum...

Às dez e quinze, Mariana acordou num salto. Ainda precisava tomar banho e se arrumar, antes que sua amiga chegasse. Entrou no chuveiro e notou que não tinha pego uma toalha. Saiu correndo ensopando tudo. “ Que friiiiio!”, pensou, “ É só estar com pressa que as coisas começam a dar errado.” Lavou o cabelo mas depois se arrependeu, não iria ter tempo para secá-lo direito. Ela tinha cabelos castanhos escuros, quase pretos, pesados, lisos, bem grossos, cobrindo os ombros. Não era alta, mas também não era tão baixa quanto julgava ser, pois a maioria de suas amigas tinha mais ou menos a mesma altura que ela. Abriu o armário e ficou olhando com seus olhos esverdeados... o que poderia usar? Estava frio mas dentro desses lugares geralmente fica muito quente. Pegou um vestido preto, desistiu e jogou-o na cama. Acabou escolhendo uma saia preta e uma bota também preta, mas não se decidia pela blusa. Vanessa entrou no seu quarto.

— Ainda assim?

— Detesto escolher roupa.

— Veste esta aqui. — sugeriu Vanessa pegando uma blusa rosa.

— Mas... é rosa!

— Ainda bem que você não é daltônica. Veste esta que vai ficar legal.

— Queria lembrar quem me deu uma blusa rosa... — resmungou, mas aceitou a sugestão da amiga e colocou a blusa. Depois pegou seu casaco de couro, também preto, e saíram.

***

Eduardo e seus amigos chegaram cedo, conseguindo reservar uma mesa. Larissa já estava lá com algumas amigas e cumprimentou a todos. Conversou um pouco com Eduardo e depois foram para a pista dançar, Marcelo e Carla os seguiram. Quando Mariana chegou, encontrou Gabriel na mesa com Carol, mas não viu seus outros amigos. Saiu para procurá-los, Eduardo a avistou primeiro e veio ao seu encontro.

— Oi. Sua prima está pra lá.— disse apontando para sua direita.

— Tá. Já vou falar com ela. Estive pensando no que o Gabriel falou e acho...

— Não sei se esta é a melhor hora de falar nisso.

— Não, Edu, esta é a hora perfeita. Com esse barulho, ninguém vai ouvir, se ouvir não vai entender e, se entender, vai achar que estamos bêbados.

— Certo, mas assim que conseguirmos sentar nós três na mesa sem ninguém por perto.

Mariana encontrou sua prima e ela a acompanhou até a mesa, onde conversou com Vanessa, que, depois de um tempo, se levantou chamando todos para dançar. Gabriel recusou, pois detestava dançar, Mariana disse não estar afim, Eduardo também. Marcelo e Carla já estavam na pista, Larissa levantou e perguntou se Carolina não iria com ela. Carol olhou para o Gabriel, depois para Mariana e disse para ela ficar de olho nele.

— Não se preocupe, depois eu faço um relatório. — brincou.

Assim que se misturaram ao público da casa, Eduardo começou:

— Ótimo, estamos os três aqui, sem ninguém para atrapalhar. Podemos continuar a conversa de ontem.

— Já contei tudo o que sabia. Não encontrei nada de diferente nas anotações do Dr. Ivan.

— Talvez, Ga.— falou Mariana.— Mas ainda não há como ter certeza da existência dessa máquina. Na verdade, eu não acredito. Você sabe, só acredito vendo.

— Ela tem razão, e só há um meio de fazer isso. Irmos até o sítio. O que você sabe sobre ele? — indagou Eduardo.

— Não, não e não. — disse Gabriel — Nem pensem em ir até lá. Mesmo que ele a tivesse construído, o que iríamos fazer? Testá-la?

— E por que não? — perguntou Mariana, fitando Gabriel e debruçando-se na mesa.

- Você bebeu. - ralhou Gabriel.

- Vamos exercitar a mente, vai. Porque não? - insistiu Mariana.

— Porque eu não sei como ela funciona... ainda... se é que funciona... É verdade que tenho o mapa e as chaves do sítio, mas mesmo que eu resolvesse fazer a loucura de ir até lá, eu nunca meteria vocês nessa encrenca.

— E iria com quem, então? Com a Carol? Você gosta demais dela para dividir um assunto desses, eu sei. Só a hipótese dela te achar um maluco já te faz tremer a espinha. E é isso que ela vai pensar. É isso que estamos pensando! Você só contou pra nós porque não havia outra saída, mas agora que sabemos não vamos deixá-lo sozinho nessa. Vamos ver se isso existe ou não. Aí você desencana de vez.— concluiu Eduardo.

— Não sei... Tenho uma sensação... Do jeito que o Doutor falou... Acho perigoso levar isso adiante. Digamos que isso exista. Pelo que li, mesmo que ele não tenha conseguido terminar da construí-la, saber disso já é perigoso. Não se pode esconder uma descoberta dessas por muito tempo, se ela for real. — disse, Gabriel, tentando encerrar o assunto.

— Não me venha falar de perigo, Gabriel.

— Quando vamos até lá, então? — decidiu Eduardo.

— Opa! Eu não disse que iríamos, ao menos não por enquanto. Deixe eu estudar melhor o assunto.

— Então é melhor você não dar tanta bandeira, todos estão te estranhando. A Carol inclusive procurou a Mari perguntando se ela sabia de alguma coisa, e eu também fiz isso. — — informou Eduardo.

— Ela procurou você? — espantou-se Gabriel, virando-se para Mariana.

— Procurou. Estava preocupadíssima. Eu falei que não descobri nada e que se você não tinha contado pra ela é porque devia ser alguma coisa à toa do trabalho que logo iria se resolver.

— Ótimo, o Gabriel estuda melhor o assunto, pára de se trancar no quarto e não responder quando falamos com ele e daqui a alguns dias combinamos de ver e se existe a... máquina do tempo.— falou Eduardo, misterioso, depois, olhando para frente, avisou: — Agora disfarçamos que vem vindo gente. Acho que vou ficar um pouco com sua prima, se não se importa.

***

Carol sentou-se ao lado do namorado e Eduardo foi dançar com Larissa. Mariana achou melhor não ficar segurando vela e cedeu à insistência de sua amiga para irem dançar. Antes de ir para a pista, pararam no bar para beber alguma coisa. Vanessa se apoiava no balcão e perguntava para Mariana:

— Não vou permitir que vá embora sem falar com ninguém hoje... O que acha daquele lá?

— Muito alto.

— E aquele outro?

— Qual?

— Aquele de camisa azul, que está ao lado do que camisa vermelha. — esclareceu, apontando rapidamente.

— Muito baixo...

— E o de camisa vermelha?

— Muito gordo.

— Assim está ficando difícil... Vamos ver.... Ah! Aquele de costas, de camiseta verde... deixe ele se virar... e então?

— Muito magro.

— Exigente você. Que tal aquele de camiseta preta?

— Muito bonito. Com certeza é metido. Ou tem namorada. — deduziu Mariana. — Olha lá aquela ruiva com ele, eu não falei?

— Já que é assim... e o que você acha daquele que está olhando pra cá, à sua esquerda.

— Aquele é muito feio! Você não está ajudando muito, Vanessa.

— Sem problemas! O Felipe acabou de chegar, vem que eu vou te apresentar pra ele.

***

Sábado Gabriel tomou o café da manhã com a namorada e bem mais tarde a deixou em casa. Mas quando voltava para o apartamento teve um impulso e desviou para a Universidade. Claro que a faculdade de física já havia fechado, mas ele usou as chaves de seu professor para entrar pelos fundos. Andou pelos corredores mal iluminados pela pouca luz que entrava pelas janelas altas e foi para a sala do Dr. Ivan.

Fechou a porta e começou a vasculhar as gavetas, olhou debaixo da poltrona, atrás dos quadros, em suma, revirou a sala inteira. Não entrou nada que interessasse. Sentou-se e olhou para o armário... ali deveria ter alguma coisa que ele não vira da primeira vez. Sentia que faltava ver algo, que faltava uma peça naquele quebra-cabeças. Levantou e abriu o armário. Olhou tudo o que havia lá dentro, cadernos, anotações, provas de alunos que ainda não tinham sido corrigidas, mas não encontrava nada relativo à invenção. Estava quase desistindo quando notou que o fundo parecia solto. Era um fundo falso. Ao tirar a tampa descobriu diversas novas anotações, mais recentes, referentes a experiências feitas com animais. Pegou tudo, arrumou a sala e saiu.

***

Marcelo via televisão deitado no sofá com a namorada. Tinham ficado daquele jeito boa parte da tarde. Ele contava, de novo, como havia sido o júri do dia anterior. Eduardo tocava seu baixo no quarto, e de vez em quando ia até a sala conversar com seus amigos. Marcelo a Carla estavam namorando há anos, e todos brincavam perguntando quando iam casar. Ela respondia que tinha de se formar primeiro, arrumar um emprego, juntar dinheiro... Ela também não parecia ter pressa. O fato é que ambos tinham se acomodado naquela situação, ele até tinha ganho uma irreparável barriguinha, e não demonstravam estarem dispostos a mudar nada, por enquanto.

Os três moravam em um bom apartamento, mas que vivia bagunçado. Depois de muito pesquisarem, encontraram aquele, de três quartos e um banheiro. Assim cada um poderia guardar todas as tranqueiras sem atrapalhar o outro. Exceto a bagunça no banheiro, claro. Tinha apenas uma garagem, que Marcelo usava, conseqüentemente, pagava uma quantia maior na divisão do condomínio, Gabriel alugava a vaga da senhora de cima. Era uma viúva de pouco menos de setenta anos que desandava a falar dos netos cada vez que ele ia pagá-la.

Eduardo não tinha esse problema, pois não tinha carro. Achava melhor assim, pois tinha menos despesas, e, como moravam perto do Hospital onde ele trabalhava, não era uma necessidade, ao menos enquanto morasse tão perto do trabalho.

***

Gabriel chegou e voou para o quarto, cumprimentando rapidamente seus colegas na sala, torcendo para que Marcelo não reparasse. Mas apesar de ficar pouco tempo na casa, passando a maior parte do tempo no escritório ou com a namorada, ele percebeu o comportamento estranho e recluso de seu amigo. Pensou em falar com ele, mas achou melhor mais tarde, quando sua namorada tivesse ido embora.

Logo que Gabriel fechou a porta do quarto, Eduardo viu que Marcelo estranhava o comportamento do amigo deles. Esperou um pouco antes de bater na porta e assim que entrou disse:

— Ao menos ligue o som para parecer menos suspeito.

Gabriel colocou um CD do Savatage e contou o que havia encontrado no fundo falso:

— São relatos de experiências para testar se ela realmente funcionava e sua precisão. O professor colocava animais, gatos, coelhos, gaiolas com pássaros e programava para mandá-los alguns minutos ou mesmo dias para o futuro. E na hora programada, eles apareciam. Apenas não tentou enviá-los para o passado ou lugares diferentes.

— É possível mandar para lugares diferentes também?

— Na teoria meu professor acha que sim, mas não sabe se na prática o resultado é o mesmo. Não vou negar, depois de ver esses relatórios, estou ficando com uma vontade incontrolável de ir até lá, ver com meus próprios olhos.

— E se fôssemos amanhã? Marcelo está começando a desconfiar de alguma coisa, não sei quando é o campeonato de esgrima da Mariana, o que pode nos atrasar ainda mais. E eu também não sei quando terei de fazer plantão.

— Pode ser. — ponderou Gabriel— Se eu não me engano, a Carol tem um almoço de família... eu não vou mesmo com ela, se eu deixar para ir no laboratório outro dia, vou precisar de uma desculpa e talvez ela desconfie, já que anda com a pulga atrás da orelha...

— Ótimo, vou ligar para a Mariana. Melhor irmos na casa dela hoje mesmo e combinar os detalhes.

— Precisamos pensar exatamente o que vamos fazer lá, se amanhã iremos só olhar ou se existe a possibilidade de... você sabe. E, se formos, do que vamos precisar?

— Depende de “quando” resolvermos visitar. — disse Eduardo rindo, e abriu a porta para sair.

— Edu, — chamou Gabriel— deixe que eu falo com ela.

***

Tocou o celular e Mariana deu um pulo na cadeira. Estava em um restaurante com Felipe, o amigo que Vanessa tinha apresentado na noite anterior. Ele não era muito alto mas também não era baixo, nem magro nem gordo, não era feio, até que era bem bonito, mas não demais a ponto de chamar a atenção de todas as mulheres do restaurante. Mas o principal é que ele parecia ser muito simpático. E alegre. Ria e também se espantava com as peripécias ao volante que Mariana contava. Atendeu sem jeito:

— Alo!

— Mari! — disse Gabriel.— Onde você está? Seu pai disse que você saiu com um tal de Felipe... Quem é esse cara?

— Como quem? Você sabe, ontem...

— Ah... o amigo da Vanessa... posso saber onde vocês estão?

— Foi pra isso que você ligou? Ficar me vigiando?

— Na verdade não, eu só queria avisar que vamos na sua casa hoje e amanhã é o grande dia.

— O quê??? Hoje??? Amanhã??? Como assim? Eu não posso encontrar vocês hoje. — sussurrou.

— Vai poder. Que horas são agora? Oito? Às nove e meia estaremos na sua casa.

— Nem vem, estou ocupada!

— Até às nove e meia. Beijinhos, tchau. — e desligou.

— Nove e meia não! Gabriel! Gabriel... Gabriel???

Mariana desligou o celular e virou-se para Felipe. Sorria amarelo. Tentou, mas não conseguiu pensar em nenhuma desculpa decente para ir embora mais cedo. Acabou não inventando nada e foi ficando. Quando viu que já tinha passado muito tempo e não chegaria a tempo, simplesmente disse que tinha gostado muito do encontro, do filme, que ligaria para ele durante a semana, pediu a conta e foi embora.

***

Eduardo ficou um bom tempo pensando no dia seguinte. Ficou matutando se seria necessário levar algo e o que poderia ser útil em uma viajem sem roteiro como aquela. Como havia praticado vários esportes de aventura quando tinha tempo para isso, abriu o armário e ficou divagando sobre o que poderia encontrar de útil.

Gabriel escondeu as anotações, separando algumas coisas para mostrar à Mariana, ligou para sua namorada e foi até a sala. Assim que Eduardo apareceu disseram dizendo que iam dar uma passada na Mariana, sem entrar em detalhes. Saíram. Quando chegaram na casa dela, ainda esperaram dez minutos até que ela aparecesse. Assim que ela entrou, deu um beijo no seu pai e os acusou de estarem adiantados, mas eles riram dizendo que ela estava atrasada, como sempre, e que nem uma “máquina do tempo” poderia resolver esse problema.

Ficaram um pouco na sala, conversando com o pai dela, e depois subiram. Aquiles os seguiu e tentou se esgueirou pela porta antes que fosse fechada, sem sucesso. Mariana foi até o som escolher um CD.

— Põe aí alguma coisa do Iron.— pediu Eduardo.

— Hum... Acho melhor algo que faça mais barulho, para disfarçar nosso papo doido... Vou por este no Nevermore...

— Não... — interrompeu Gabriel— Coloca este aqui! — e pegou um CD do Iced Earth.

— De novo? — reclamou Eduardo. — É exatamente este que escutamos da última vez.

— Vai esse mesmo, é um dos meus favoritos. — decidiu Mariana.

Colocou o CD no aparelho e seus amigos pediram que aumentasse o volume, para seu pai não ouvir a conversa. Mas ela não aumentou tudo o que desejavam, primeiro porque ele não tinha o mal hábito de escutar atrás das portas, segundo porque ela queria ouvir a conversa, e não estourar os tímpanos.

Resolvido esse pequeno impasse, Gabriel contou os últimos acontecimentos e a razão pela qual desejavam ir no dia seguinte até o sítio.

— Amanhã é um dia que nós três estamos livres, não precisaremos dar grandes explicações, nem desmarcar nenhum compromisso. Quanto mais demorarmos, mais suspeitas vamos levantar, ou melhor, o Gabriel vai levantar e depois do que o Gabriel encontrou, melhor irmos logo antes que outra pessoa descubra a máquina antes.

— Eu acho precipitado, mas se as circunstâncias estão favoráveis... talvez não seja mesmo seguro ficar adiando. Semana que vem tem o campeonato e depois é meu aniversário... Está bem, vamos lá amanhã. — ponderou Mariana.

— Claro! Precisamos acertar os detalhes para amanhã. Aqui está um mapa para o sítio. — e Gabriel estendeu um mapa sobre a cama.

Ajoelharam-se todos no chão, ao redor do mapa e dos demais papéis que Gabriel havia levado, apoiando os cotovelos na cama.

— Vamos no meu carro. — disse Mariana. Passo para buscar vocês... às nove da manhã está bom?

— Melhor às oito.

— Pra quê pressa se temos uma máquina do tempo? - ironizou Mariana.

— Não temos ainda.— falou Eduardo. — e talvez a gente demore um pouco mais do que o previsto para achar o sítio, o laboratório, entender como aquilo funciona...

— Está bem, passo às oito. — resignou-se Mariana.

Passaram a falar de amenidades e Eduardo contou sobre a divagação que teve. Fizeram mentalmente uma lista das coisas bizarras que poderiam usar nessa expedição ao sítio misterioso. Imaginação não faltou aos três, que listaram desde um simples band-aid até o equipamento de rapel.

— Ótimo. Mas só para deixar vocês com inveja, eu tenho uma coisa legal que vocês não imaginam! — animou-se Mariana, num pulo até o armário. Pegou um binóculo.

— Será que vamos precisar disso? — questionou Gabriel.

— Não é um binóculo comum. É um super binóculo noturno!

— Caramba!!! — empolgou-se Eduardo. — Onde você comprou?

— Na última viagem a trabalho.

— O que você foi fazer?

— Salão do automóvel, oras. Esse foi meio caro, é profissional, e não essas coisinhas vagabundas que tem por aí. Uma loucura que eu fiz, meu pai até me deu bronca, mas eu sempre quis ter um desses, não que soubesse exatamente pra quê...

— Muito louco!! — exclamou Gabriel olhando com ele pela janela.

Ouviram batidas na porta, jogaram os papéis debaixo da cama rapidamente e Mariana foi abri-la. O pai dela segurava o telefone sem fio:

— Vocês deixaram o som tão alto que não perceberam o Aquiles arranhando a porta, e também não devem ter escutado o telefone. É a Vanessa.

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