Dizem que os olhos são o espelho da alma... Que clichê!
Os olhos não refletem a alma, mas a combinação genética que os moldou. O que importa é o olhar, o que está além. O olhar não reflete, mas revela a essência. E por isso, e só por isso, que o amor, o afeto, a pureza do sentimento, não dependem dos hormônios e feromônios, mas da ligação das almas.
Ao perceber que sua musa nada tinha além do sorriso emoldurado por sua estética controversa, rabisca o poeta versos ao anoitecer, sem rimas, sem métrica, mas com decisão:
Mulher,
De que me serve tua imagem, se ela a uma imagem se resume?
De que me serve teu sorriso, se ele só serve para esconder sua loucura?
De que me serve tua estética, se ela só disfarça tua imperfeição de alma?
De que me servem tuas memórias, se elas devem ser selecionadas para fazerem sentido?
Há muito enterrei tua maldade, mas teu fantasma retorna para me assombrar.
Não o fantasma do que foi, mas do que eu gostaria que fosse.
Não o sonho que tivemos, mas a ilusão que alimentei.
No fim, restou apenas uma assombração.
Pessoas não mudam, assim como sorrisos apenas não encobrem a verdade.
Cabelos bem cuidados, poses estudadas para aparentarem espontâneas.
Roupas escolhidas, maquiagem impecável...
Nada disso reflete o espírito que a carne habita.
A essência não transparece por traços da genética.
A essência não se revela na imagem estética.
Imagem que pode ser alterada pelo ângulo.
Alterada pelo golpe de vista.
Alterada pelo enfoque do observador.
Não.
A essência não se manifesta no sorriso, mas os genes.
A essência não se manifesta nos olhos, mas os genes.
A essência não é traduzida pela pura imagem.
Apenas o olhar transborda o sentimento.
Apenas o olhar denuncia a doçura.
Apenas o olhar cochicha o desejo.
E apenas o olhar me diz a tua alma.
E tua imagem não me satisfaz.
Na tua imagem falta o olhar
Olhar de afeto, de amor, de entrega.
O olhar que agrada à minha alma.
O olhar que quero ter sobre mim... Não é o teu.
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