Não mergulho, sou lançada. Jogada à revelia em águas turvas. Não enxergo o fundo, o chão, tampouco meus pés, camuflados nas águas escuras. O medo toma conta de mim e se transforma em pavor quando sinto algo se enroscar nas minhas pernas. Alguma espécie de alga de água doce passa por mim causando calafrios. Mas não tenho escolha, não há como voltar ao abrigo onde estão os meus algozes.
Dou as primeiras braçadas na direção oposta à que vinha. Olho para trás e vejo aqueles que me lançaram, após convite irresistível para que os acompanhasse. Não, não eram todos que buscavam minha presença, e aqueles que o queriam, provavelmente o fizeram pelos motivos errados. Pensar o contrário é ilógico: seria para isso que fui iludida a embarcar? Tanto trabalho apenas para me atirarem a essas águas? Mas eu também aceitei pelos motivos errados. Não conhecia a nau, não sabia o que me esperava.
Agora não há mais como voltar. Preciso enfrentar o pânico que toma conta de mim e não hesitar em minhas braçadas. Canso fácil, estou fora de forma. Quantos anos que não enfrentava a deliciosa fúria das águas? Quantos anos que estava afastada desse elemento?
Escurece. O anoitecer não torna minha travessia mais fácil ou agradável. Por sorte a noite está enluarada e consigo enxergar meu destino, logo à minha frente, banhado pela suave luz azulada da noite, dos raios do sol refletidos por nosso satélite. Parece que falta pouco, mas não. Tudo é ilusão. A distância é muito maior do que os olhos querem que acreditemos. Diminuo o ritmo para aguentar nadar os últimos metros antes da margem. Sinto terra sob meus pés. Tento caminhar, mas meus passos afundam no terreno movediço e continuo dependendo da água para me deslocar. Longe demais, eu pensava. Devo ter desviado o curso, nadado em linhas transversas.
Finalmente chego a meu destino. Não sei o que há na minha chegada, onde estou, o que me espera. Só sei que consegui, enfim, deixar de enxergar meu pesadelo no horizonte.
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