quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Destino, livre arbítrio, relacionamentos, sexo e controle

Primeira Parte

Cena 1- Não julgueis para não serdes julgados
Já haviam tentado uma vez. Já haviam tentado uma segunda vez. Não deu. Mas não foi o destino que os separou. Foi a impaciência, a insensibilidade. Daí veio a paixão, a paixão burra... A sensação de que é essa segunda pessoa a mulher maravilhosa que merece todos os privilégios. Golpe? Golpe. O tempo passa, a antiga paixão nunca esteve tão distante que não merecesse um alô. Mas nenhum toque. Nada. A ética, não dele por óbvio, não permitiria. O amor dela por outro era total impedimento. Crise, diz ele. Separação iminente, diz ele. Durante anos... Se durante anos o que de iminente tem isso?
Ela senta com as amigas. Diz que ele diz (e o quanto de verdade há no que ele diz ninguém sabe) que ele e a esposa não fazem mais sexo, que a esposa nem liga pra ele, que sai e volta de madrugada sem saber onde foi, que já fizeram terapia de casal, que a mulher gasta todo o dinheiro dele no shopping e que vai para a balada enquanto ele recebe os amigos do casal em casa.
A amiga se segura, ela nem termina de falar.... A amiga pensa que é tudo mentira, desculpa esfarrapada para iludir. Mas, e se for verdade? Ah... Se for... A amiga se segura. Pensa, mas se segura... Se for... Não... Não pode pensar, não pode dizer. Não julgueis para não serdes julgados... Ah, bem feito! Está colhendo o que plantou! Tratou mal uma das pessoas mais fiéis e boas que ela conhece, não teve paciência, foi indelicado, descartou como um chinelo velho achando que ia arrumar coisa melhor... Magoou sua melhor amiga. Merece. Sofrendo, vítima de golpe do baú, golpe da barriga... Merece... Ela não pode interromper e bater na mesa enquanto canta:
COOOOOOOOOORNOOOOOO !!! CHIFRUUUUUUDOOOOOOOO!!!

Cena 2 – Ansiedade
Faz dois meses? Não, mais. São mais de dois meses desde que ele resolveu arriscar. Bem mais. Não era só arriscar. Era ligar sempre, todo dia, dar uma atenção que ela poucas vezes teve. Sequer pensava que seria possível. Mas é só... E aí, que nada. Os dias passam e nada... Nada, nada, nada... Será sempre assim? Será sempre a mesma coisa? Ela cansa. Cansa de esperar. Eles discutem. Ele pensa em deixar esfriar. A maledicência entra em cena. Ela acredita que ele está saindo com mais de uma ao mesmo tempo. É a única explicação para o comportamento dúbio. Todos os bônus e nenhum ônus. Quando isso acontece, ela quem fica com os ônus, perdendo todos os bônus. Ela resolve dar um fim nisso.

Cena 3 – O inesperado
Mal tinha se livrado de todos os resquícios de seu passado, ele a chama para sair. É um choque. A situação é completamente inusitada e totalmente diferente de tudo o que ela já sonhou para si mesma. É uma situação que exige estrutura que ela acredita não ter.
Na primeira dificuldade, ela recua. Eles voltam. Ela termina novamente. A terceira tentativa. É definitivo. Talvez não seja assim tão difícil... A harmonia está se instalando conforme as dificuldades aparecem. As pessoas envolvidas começam a ficar felizes. O clima fica mais leve. Eles marcam o casamento.

Cena 4 – Confissões tenebrosas
Que ela é insegura, ninguém sabe. Que a simples possibilidade de rejeição já a mata por dentro, poucos desconfiam. Ele chega, ela o manda passear. Ele volta, ela recua. Ele insiste e insiste e insiste e insiste. Ela aceita. Ela não acredita, mas ela quer acreditar. Ele mente e ela finge que acredita. Ela não quer contestar. Ele pede e ela passa dos limites. De todos os limites. Não porque quis, mas porque não conseguiu negar. Ela precisava agradar. Vem a crise. Ela chora. Ninguém acredita que aquela não é ela, mas uma pessoa que ele quis construir para seu agrado. Para sua satisfação mais indecente, mais nojenta, mais asquerosa.. O inferno.

Cena 5 – Eu vejo, eu vejo!
A cartomante disse que ele vai fazer tudo para ela. Ela quer acreditar.
O vidente disse que ele gosta muito dela, mas ela precisa conversar como outro, pois há algo para resolverem.
A moça que lê cartas por telefone disse que seria uma ótima experiência, que iria abrir muitas portas, e todas aquelas bobagens.
A vidente deu detalhes. Ela disse que ele ainda não tinha conhecido... O amigo disse que seus filhos seriam lindos. Quem é ele agora, um geneticista?
Aham....
Até onde eu sei...

Cena 6 – Pagando a língua
Ela agüentava as mais loucas e bizarras manias. Uma vez ele saiu com a turminha nova dele e nem a convidou. Nem pensou em convidar. Ela ficou chateada. Chateada... E daí? Daí nada, ué... Ele reclamou dizendo que ela pega no pé, que é ciumenta.
Ele foi encontrar os amigos, ela disse que tudo bem. Nem ligou. Quando estavam com os amigos ele ficava à vontade para falar besteira. Ele era ele mesmo e ela, ela mesma. Mas ele disse que não estava no momento, que não poderia dar atenção, que estava sufocado.
Ele casou com uma mulher tão louca e possessiva, que se afastou de todos os seus amigos, não faz mais piadas quando está com a turma e nem convidou todos para o casamento.

Cena 7 – Possessividade
Ela contou que uma vez, faz tempo isso, encontrou o namorado, hoje seu marido, conversando com uma ex-namorada. “Só conversando?” Questionaram os que ouviam a narrativa. “Só conversando.” Ela responde. Quando ela viu o namorado, hoje seu marido, só conversando com uma ex-namorada fez um escândalo tão grande, mas tão grande, mas tão grande, que todo mundo da cidade parou para ver, a menina saiu correndo e o infeliz do namorado nunca tinha sentido tanta vergonha na vida...

Cena 8 – Injustiça
O cara estava apaixonado. Mesmo. A moça não devia ser lá flor que se cheire. Toda a vez que saíam ela fazia um escândalo. Qualquer coisa era motivo. Daquela vez, ninguém entendeu. Parece que ela achou que ele estava olhando para outra...
Depois que eles terminara, digo, ela deu um pé na bunda dele, fez a mesma coisa com o outro... E com o outro... Que casou com ela.
A moça era tão despirocada e maluca que brigou com a família dele quase inteira. E ele brigou efetivamente com a família inteira. Não deu certo. Anos depois, ela aparece com o noivo, outro. Simpático, parece um cara legal.

Cena 9 – Contradições
Ele dizia que foi criado para respeitar as mulheres. Parecia sério, comprometido. Dizia sempre que queria casar, ter filhos. Adorava criança, isso era óbvio e inegável. Ligava todo o dia, ajudava em tudo. Prestativo, protetor.. Era um amor, um anjo... Dava colo... Ah, quanto tempo ela não sabia o que era colo!
Cobrava? Sim, cobrava. Mas não muito. Fazia aqueles comentários que se faz quando se fica com ciuminho, do tipo: “Qual o nome dessa sua amiga, João, Pedro?” “Comporte-se.” “Não beba muito.” e coisas assim...
Ela estava presa. Presa a um sentimento, preza a um sexo, que era apenas para suprir sua necessidade de afeto. Afeto... Mas, e ele? Não quer que peça, que cobre, que assuma, que sinta, que chore. Brigarão, diz. Brigarão? Posessiva? Seu ex-namorado ia sempre beber com os amigos, encontrar o pessoal da faculdade, nas festas da empresa, e ela não falava nada! Nada!!! POSSESSIVA O CARALHO, ela pensou. Insegura, talvez. Com o saco cheio, com certeza. Lógico, ele pode pedir, ligar em cima da hora, excluí-la, ficar com o celular desligado, mas ela não. Ela nunca. É simples assim. Simples assim.
E tempo foi passando, passando, e... ?

Cena 10 – A maldita frase e a pergunta de ouro
Você é linda, inteligente, gostosa, simpática, ótima, excepcional, mas...
Por que tem que ser tudo sempre do jeito deles para a gente não ficar sozinha?
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26 de outubro de 2008

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