sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Complicações

Quando me pedem para definir em poucas palavras o que eu faço da vida, referindo-se à minha profissão de advogada, eu digo sucintamente: Previno, resolvo e crio problemas.

Simples. Ou complicado? A pergunta é pertinente. A nossa sociedade é complexa, e muito complexa. E cada vez mais complexa. Mas complexo precisa ser complicado? Não deveria.

Mas, voltando. Eu previno problemas. Ao receber uma consulta ou ser questionada, já fui "treinada", por assim dizer, a antever todo o tipo de complicação. Até na vida pessoal, mesmo que eu faça besteiras, eu sei que estou fazendo besteira.

Eu resolvo problemas. Não que a solução seja exatamente a que o cliente quer, pois muitas vezes ela não é possível, viável, ou a melhor solução. Mas já procuro os caminhos possíveis e escolho aquele que irá me levar ao mais próximo possível da solução definitiva.

E eu crio problemas. Acontece muitas vezes da solução necessitar de um problema... para o outro. Não são problemas que eu crio propositalmente para o cliente a fim de solucioná-los. Mas acontece algumas vezes de precisar criar um problema para que o cliente, e eu também, não tenha problemas.

Então a minha vida é administrar problemas.

E administrar problemas é muito estressante.

Daí porque quando fui no médico reclamando de todos os sintomas possíveis e imagináveis de estresse e completa estafa física e mental, ele olhou para mim e disse sarcasticamente: você é advogada, né?

É...
E se não bastasse ficar o dia inteiro administrando problemas, ainda sou capaz de criar uma meia dúvida de problemas desnecessários para mim.

O que me conforta é que essa capacidade de criar para si problemas que antes não existiam não é exclusividade minha. Até é possível pensar o fato filosoficamente.
Será uma exigência da vida moderna? Essa vida que para simplificar complica?

Talvez.

Vejamos. Antes, para ir de um lugar a outro no globo se demoravam dias, semanas, meses. Hoje, posso pegar um avião aqui em São Paulo e em questão de horas, voalá, estou no velho continente. Impensável a uma centena de anos. Incrível, não? Isso é uma simplificação.

Será mesmo? Crises na aviação (parece que o setor já nasceu em crise), caos aéreo (relaxa e goza?), problemas técnicos, congestionamento nos aeroportos e no espaço aéreo, cidades que cresceram nas cabeceiras das pistas de forma que qualquer acidente toma proporções avassaladoras... Atrasos nos vôos que significam atrasos nos negócios, na economia... Prejuízos.

A poucas décadas atrás, para conversar com alguém, digamos, no Rio Grande do Sul, tchê, precisaríamos fazer longos interurbanos caríssimos. Hoje? Skype. Instalamos um programa no computador e lá vamos nós conversando. Namoros à distância ficaram menos terríveis, sem a necessidade de longas e meladas cartas enviadas periodicamente. Hoje? Um MSN ou coisa semelhante e uma webcam resolvem o problema. Quer que um amigo seu lá na Suíça conheça uma música que só toca aqui? Nada de cantâ-la desafinadamente até que ele "entenda". Grave um mp3 e mande, por e-mail.

A sociedade está mais complexa e o mundo mais rápido, muito mais rápido. Velhas barreiras não existem mais. Mais simples... Simples?

Porque raios um ser humano em sã consciência, dois telefones, três celulares, oito contas de e-mail, quatro cartões de crédito, cinco cartões de fidelidade de lugares que nem vai, duas máquinas fotográficas quando mal usa uma, três tocadores de mp3, duas agendas, um notebook com rede wireless, sem falar no monte de bugigangas inúteis indispensáveis que coleciona?

Atire a primeria pedra quem nunca se estressou com o celular tocando, tocando, tocando... Sejá lá onde você esteja, seja lá que hora do dia, ou da noite, seja lá fazendo o que for, vendo TV, no médico, na igreja, tentando se concentrar naquele assunto dificílimo... e aquela porcaria tocando, tocando... Atire a primeira pedra quem nunca quis se esconder, jogar o celular na parede, desligar na cara do intruso insistente, que aparentemente não tem mais nada o que fazer na vida senão procurar você. Quem nunca pensou "mas ele me tirou daquela reunião importantíssima pra isso?" Parece que se não te acharem naquele minuto o mundo vai cair.

E quem também nunca deu uma de chato?

E atire a primeira pedra quem nunca ficou mais tempo jogando papel fora e limpando a caixa de entrada do e-mail daquele monte, mas monte de propaganda, tentativas de golpe e de passar vírus, ofertar impublicáveis, spans de todas a espécie, ou abrindo e-mails e mais e-mails absolutamente idiotas daquele conhecido seu que não deve fazer nada na vida? Receber um ou outro e-mail para sua mais pura distração é legal, receber 20 por dia é inviável.

E diga-me quem, mas quem nesta terra, nunca em momento algum não se sentiu deslocado ou mesmo uma ameba por não saber tudo o que acontece no mundo, nem ter todas as respostas, nem conhecer todos os lugares? E ainda ser um incompetente por não conseguir seguir todos os conselhos da vida saudável, fazer todos os cursos e especializações e ser aquele ser humano maravilhoso, lindo, cheiroso e sexy que algum imbecil diz que você pode ser só pra vender sabonete?

Quem, diga-me quem nunca, jamais, em tempo algum não pensou em se livrar de tudo isso, após ficar horas em algum callcenter, para não ter resolvido o problema que não se teria se não tivesse contratado, comprado, buscado aquele item, serviço, indispensável para ajudar, mas que acabou atrapalhando?

Porque coisas que deveriam facilitar acabam por complicar tanto a vida moderna?

*
27 de janeiro de 2009

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