sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Luxo

Preciso comprar um vestido novo porque vou ser madrinha de um casamento. Então, para me inspirar comprei algumas revistas. Folheando a revista mais “chique” passei a ignorar as descrições feitas de grife e preço (especialmente preço) e a apreciar as fotos bem feitas, a combinação de cores e formas, o acabamento caprichado, o efeito photoshop… Enfim, a estética da publicação e consegui me distrair um pouco. Eu me deixei levar por aquelas páginas bem-feitas para relaxar e não pensar por alguns momentos na realidade.

Mas, como todo devaneio tem prazo de validade, o cérebro inquieto logo resolveu raciocinar a respeito daquilo.

Quem gosta de pobreza é intelectual de esquerda pernóstico. As pessoas gostam de ver coisas bonitas e a pobreza não é bonita. Não digo nada contra a simplicidade, a vida simples, sem ostentação, mas as moradias precárias, a falta de saneamento, as roupas de baixa qualidade, chinelos velhos, comida escassa, dividas, pouca cultura, etc.

Não acredita? Filmes “brasileiros”, segundo um amigo meu: velho banguela, criança empinando pipa e galinha. Não que todos os filmes retratem a pobreza e a miséria tipica brasileira, mas ainda é a imagem (esteriotipada, talvez) do nosso cinema. E por culpa dele próprio. A cultura intelectualizada brasileira tem cores bem características e, porque não dizer, pitorescas.
O que faz sucesso são as novelas com seus núcleos ricos, de madames usando grife e empresários com motoristas, helicópteros e jatinhos. O que vende mesmo é a Contigo, a Caras, com fotos dos famosos em festas luxuosas, em casas enormes. Ver pobreza? Isso é coisa de intelectual... de esquerda… Se é que ainda se pode falar em esquerda e direita.

Mas existe algo muito errado… Vejamos. Algumas peças roupas e acessórios anunciados naquela revista correspondiam ao que muitas, ou melhor, a maioria das pessoas não ganha no mês, no semestre, no ano! Carros são fabricados que valem mais do que a maioria das pessoas conseguiria acumular por toda a vida. E esses são apenas alguns exemplos.

Em um mundo com as condições de miserabilidade como o nosso, essas disparidades são uma ofensa. Mais do que ostentação e luxo, configuram tremendo desperdício, desrespeito pelos demais seres humanos.

Não condeno a riqueza material. Não tenho essa atitude recalcada e hipócrita. Conforto é bom. Melhores condições de vida são necessárias, um mundo mais bonito moralmente e esteticamente é desejável. As tentativas de se criar artificialmente uma sociedade igualitária materialmente além de inúteis e fracassadas, duvido que tenham sido sinceras. Muitas idéias libertárias foram utilizadas por propósitos escusos, e continuarão sendo.

No entanto, isso não significa que possamos continuar nessa atitute apática, considerando normal que se pague R$ 6.000,00 em uma mísera bolsa, enquanto milhares de pessoas desconhecem o significado de dignidade.

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28 de maio de 2009

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