O "mês das mulheres" está chegando ao seu final. Antes era só um dia, agora já se fala em mês das mulheres. Mas isso não é motivo de comemoração. O ideal seria não precisar da existência de dia ou mês das mulheres. O ideal seria a Constituição Federal dizer simplesmente que "todos são iguais perante a lei" sem necessidade de, em seguida, explicitar que "homens e mulheres são iguais perante a lei".
Diz isso porque a sociedade não nos considera iguais. Inacreditavelmente, em pleno século XXI somos (ainda) consideradas inferiores. Vítimas de preconceitos e exclusões, assim como todos aqueles que são diferentes da "elite dominante" no momento.
Ainda crescemos ouvindo que isso não é coisa de mulher, tentando entender porque alguns comportamentos masculinos são tolerados e até incentivados, mas inadimissíveis quando praticados por uma mulher. Ainda crescemos ouvindo piadinhas sexistas, sendo bombardeadas por afirmações que diminuem nossa capacidade intelectual e de realização. Lugar de mulher é na cozinha... Mulher no volante, perigo constante... E por aí vai.
Ainda somos bombardeadas com mensagens não tão subliminares assim de que só tem valor a mulher bonita. Bonita e gostosa. E jovem. São incontáveis as propagandas que nos colocam nesse papel asqueroso de "vaginas ambulantes". Um exemplo? Uma propaganda imbecil, acho que de alguma cerveja, no qual o noivo, no altar, quer que a noiva prometa que continuará sempre gostosa.
E o panaca da propaganda? Não vai ele ficar gordo, careca, barrigudo, flatulento, com pêlos nojentos crescendo do nariz e das orelhas? Dependente de viagra? Só às mulheres não é dado o direito de envelhecer?
Sofremos ainda preconceito no mercado de trabalho, com poucas mulheres nos cargos de chefia, em papéis de destaque na política e na economia, e nas ciências. Falta de capacidade? O que diferencia homens e mulheres é apenas um cromossomo. Um. Um cromossomo que determina ação diferente dos hormônios, para a reprodução humana. O aparelho reprodutor e suas consequências, como a aparêcia física e as diferenças fisiológicas decorrentes desse papel diferente na natureza. O resto, o desenvolvimento predominate de algumas habilidades, essa tendência de aptidões diferentes veio aos poucos, como consequência dessa divisão de tarefas que foi se estabelecendo. Mas não é determinante nem significa superioridade ou inferioridade de nenhum gênero.
Quando que as diferenças fisiológicas determinaram a prevalência de um gênero da mesma espécie sobre o outro? Como a sociedade patriarcal se sobrepõs à matriarcal e à qualquer outro desenho social pautado na idéia de igualdade, de que somos a mesma espécie e que nenhum é superior ao outro, apesar das diferenças? Quando que a divisão de tarefas inspirada nas nossas diferenças físicas foram levadas ao ponto de dar a um gênero o poder de vida e morte sobre o outro?
Não dá para esperar que milênios de dominação masculina suma de repente. Ainda vai demorar um tempo para o ser humano passar a olhar os outros seres humanos como simplesmente humanos. Humanos todos, com defeitos e qualidades, características adaptadas às necessidades de tempo e espaço, mas não superiores ou inferiores.
Enquanto isso não ocorre, ainda teremos de "comemorar" uma data tão trágica quanto o "dia das mulheres", inspirada na perda de vidas humanas. Teremos ainda de ler na Constituição que homens e mulheres são iguais perante a lei, em direitos e obrigações. Teremos de aguentar a humilhação das cotas. Teremos de nos aposentar antes porque ainda estaremos em jornada dupla, cuidando da casa e dos filhos enquanto os homens assistem TV no sofá, após ambos chegarem exaustos do trabalho.
Enquanto nos nos enxergarmos como humanos, e não superiores e inferiores, ainda ouviremos muitas piadinhas idiotas, e teremos que conviver com a indústria do sexo. A idéia de que posar nua vale mais do que um título acadêmico só existe ainda porque a sociedade, e nós mesmas, ainda não nos desligamos da idéia de que somos apenas pedaços de carne.
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30 de março de 2009
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