segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Primeira, segunda, terceira vez das impressões contemporâneas

Abra sua mente.
Estava cá eu, amante da música, ex-estudante de piano e teclado, ex-aventureira no canto, enfim, eu, na minha, de boa, como sempre, quando fui abordada pela mais nova Marcella de minha vida com uma pergunta instigante:
- Você gosta de música erudita contemporânea?
Ãh? Música erudita contemporânea? What is this? Música erudita, para mim, parou em Heitor Villa Lobos, e olha que sempre o achei, como direi, vanguardista. O que seria, então, música erudita contemporânea? Seria parecido com a apresentação de uma orquestra cujos minutos finais acabei assistindo sem querer na televisão e que demorei para absorver a música, o ritmo? Aliás, o que era aquilo que assisti na televisão? Não fazia idéia...
- Essas coisas contemporâneas são tudo porcaria. - afirmou um amigo meu, do cinema, o Tio, que acaba de filmar um suspense chamado Pandemônia, cujo enredo nos deixou de cabelos em pé. A opinião do Tio é sempre bem-vinda, pois dificilmente irrefletida. Mas ele é um pouco radical, então cabem reservas às suas considerações.
O convite para assistir a um concerto no SESC veio em seguida. A nova Marcella da minha vida comentava o conceito, os nomes dos compositores, dizia que passou a prestar atenção aos sons mais corriqueiros da cidade depois que seu ex-namorado, compositor e mestre em música, a introduziu no meio. Comentava nomes de intérpretes e compositores que eu nunca ouvira falar. Estaria eu tão desatualizada? Bem, não adianta ficar tentando imaginar que raios seria isso. Só existe uma maneira de matar minha curiosidade: Ingressos comprados e lá vamos nós!
Chegamos no SESC pouco antes de iniciar a apresentação, pois o trânsito estava pesado, mesmo fazendo todos os meus famosos zigue-zagues. Fui apresentada aos amigos dela, incluindo o inexplicável Nilton, figura inconfundível presente nessas apresentações, que não teve tempo de esclarecer a apresentação antes dela começar, limitando-se a me infomar que se tratava de um "espetáculo multi-mídia" e que "já conhecia a peça".
Entramos. Nem começou o espetáculo e eu já não entendia nada. Esperei sentarmos para virar à minha nova Marcella e perguntar, intrigada: - Cadê os instrumentos??? Ora, se eu lá estava para conhecer a "nova música", no festival de música nova, o mínimo que eu esperava eram intrumentos musicais. No lugar deles eu encontrei um palco com quatro painéis em cima de quatro mesas, imitando carteiras, que pareciam algo entre um mega-retroprojetor e um scanner maluco e, no canto, dois computadores, com dois caras sentados perante eles. Dois caras, que falta de respeito... Um deles era o compositor. Um francês careca e magro que em nada lembrava os demais compositores de música contemporânea, como fui constatar mais tarde, mas algum estilista qualquer. Foi nesse momento que eu soube que a "nova música" não se restringe aos instrumentos tradicionais, mas a qualquer coisa que produza sons, e, no caso específico, sintetizadores, enfim, música eletrônica. Música eletrônica? Tecno? Rave!!! Rave erudita? Não, não, não pode ser isso. O que será isso, então?
As luzes apagam. O compositor levanta e fala, em francês. Super esclarecedor, se eu falasse francês. Entram quatro moças, digo, as instrumentistas, quer dizer, as musicistas, enfim, entram elas. Sentam cada uma em frente a uma mesa. Começa. Sons falados e sintetizados. Imagens na tela. Mais sons sintetizados e falados. Elas vão interagindo. Estão dizendo alguma coisa, eu tenho certeza que estão querendo dizer alguma coisa. O quê? Não falo francês, mesmo se eu falasse não sei se entenderia. Mais imagens, obsevo que elas mexem no tal retroprojetor-scanner e as imagens vão se formando. Não são necessariamente claras, preciso interpretar as formas curiosas que fazem com as mãos e objetos. Os sons se misturam. Vozes, eletrônico, sintetizações. Como será que se escreve uma partitura... disso??? Isso é música??? O que é música afinal? Preciso rever meus conceitos... Não estou entendendo nada.
Fecho os olhos, tento apenas ouvir. Entendo menos ainda, estou perdendo as imagens. Pelo menos as imagens eu entendia. Quer dizer, mais ou menos. Mesmo os textos em português que são projetados me deixam confusa. Não enxergo direito, devia ter vindo de óculos. Paro de pensar e me deixo levar pelas sensações. Sons curiosos, tenho vontade de rir, de rir muito. Não posso rir, seria falta de respeito. Os sons mudam, imagens estranhas se formam. Medo. Medo? Elas falam, naquele esquema. Entendo algumas palavras soltas, cognatos. Mas ainda não faz sentido. Eu me sinto com uma interrrogação, eu sou uma interrogação. O tempo passa, a hora acaba. Acendem as luzes, as pessoas levantam e aplaudem. Eu levanto e aplaudo também. Mas o que estou aplaudindo? "Não entendi nada." digo para a nova Marcella. Ela olha para mim e diz que também não entendeu. Se ela, que já foi apresentada para esse universo maluco não entendeu, porque raios eu iria?
Na saída o Nilton me perguntou o que achei. Se eu não entendi pipoca nenhuma, como vou achar alguma coisa? Arrisquei algum palpite. Seria uma espécie de representação sonora do movimento cubista? Hum... quase, mas não exatamente. Deveria ter dito que seria a representação sonora de um quadro surrealista? Ele explicou. Ficou horas explicando todo o movimento da música contemporânea, a segunda guerra, os conceitos, os alemães, os franceses, a obra do tal compositor francês que tinha acabado de ver, a trilogia, cuja peça fazia parte, a história da linguagem, o fato de que aquela apresentação seria o simulacro de uma sala de aula, com as alunas debatendo... Ah... Então tá, então. Não é música no sentido clássico que conheço, que fala mais aos sentidos e sentimentos do que ao intelecto, mas, enfim...
Segundo round. Novo concerto. Minha primeira observação foi: "Oba! Instrumentos!!!". O palco tinha alguns xilofones. Também resussitaram as partituras. Lembrei da época que eu estudava piano na escola da música, e cujas aulas teóricas eram em grupo, e tocávamos flauta, xilofone e outros, além dos nossos intrumentos musicais de sempre. Passei um tempo recordando dos ensaios, da tentativa de montar uma banda de rock, das apresentações, de ter cantado em "soprano estritende" pato e parente só serve pra sujar a casa da gente, com minhas colegas. Aliás, acabei sei lá porque brigando com minha amiga, ou melhor, ela brigando comigo por causa de uma brincadeira meio mórbida em um momento não muito adequado. Mas como eu iria advinhar? Essa é a última coisa que se pensa, pelo menos, eu não costumo pensar nesse tipo de coisa. Achei que ela reagiu meio mal, over react, totalmente. Eu até tentei pedir desculpas, mas ela me acusou de louca e desequilibrada e mais um monte de coisas hororrosas. Acho que fui apenas azarada. Caramba, como eu ia saber? Eu não era a pessoa mais delicada do mundo, mas ela foi bem intolerante. Bem, isso já passou... O que não passou foi a música.
Confesso que achei meio bizarro. Tanto os sons (tong tong tong) quanto o silêncio faziam parte. A flauta foi bem agrádável. Muito reflexivo. Era até bonitinho. Em algumas passagens eu sentia que estava ouvindo a trilha sonora de algum desenho animado. O som dos xilofones é um som mais... ah... (agora eu apanho)... mais engraçadinho. Mas ainda assim tinha algo que estava meio indigesto: ritmo. Compasso, marcação, ritmo, tempo. A melodia é difícil. A última apresentação da noite foi um nome conhecido: Hermeto Pascoal. Eu me animei, apesar de totalmente bizarro, pois os xilofones eram acompanhados de instrumentos nada convencionais, feitos de materiais comuns e coisas encontradas na natureza, tais como conchas. Lembrei de um show de "MPB experimental" que me levaram uma vez. Mas foi a apresentação que eu mais curti, tinha uma batida brasileira que marcava o compassso e o som era mais "cheio".
Última apresentação que compareci. Não foi a última do festival, mas a penúltima. Cara de conteúdo e lá vamos nós, como diria a bruxa do desenho do pica-pau. Nossos colegas de concertos estavam especialmente críticos naquele dia. Posso resumir as conversas da noite em uma definição aos frequentadores desses eventos, extraída do interlóquio do intervalo: medíocres intelectualóides e deslumbrados. Hum... Possível...
Duas apresentações: o primeiro um compositor brasileiro conhecido nos meios acadêmicos que não conversei, mas foi muito simpático ao tratar com minha amiga, que já o conhecia, aliás. Apresentação um tanto pitoresca. Mas, para quem ficou as últimas semanas fazendo cara de conteúdo, foi bem leve. O nome que eu não entendi. Praia, ok, ele estava na praia quando teve aquela idéia. Mas, dialética? O que o pobre Hegel veio fazer nessa história? Aliás, o Hegel não foi o primeiro nem o único a tratar da dialética. Enfim... A segunda apresentação eu entrei empolgada. O compositor tinha o semblante esperado para um compositor de música erudita. No palco, oba, um piano. Entra a pianista, começa a tocar. Confesso que depois de algumas notas eu estava novamente com a interrogação. O piano era acompanhado da parte eletrônica, que, assim como a apresentação anterior, se enquadrava no conceito contemporâneo de eletroacústica. Eu tentei prestar toda a atenção do mundo e teve algumas partes que até gostei. Mas a música era longa demais, dissonante demais. Eu não identificava acordes, tempo, nada. Só o piano dialogando com o eletronico. Diálogo estranho, tétrico. Parecia uma trilha sonora de filme de terror.
Em meio às alternâncias da desarmonia e dissonância da música erudita contemporânea, eu me pus a divagar a respeito da contemporanidade, dos conceitos e dos pré-c0nceitos, das definições, da aplicação nas artes de conceitos abstratos filosóficos, da tradução de "normal", da quebra de paradigmas... E fiquei meditando a respeito da natural revolta e mau humor de nosso amigo auto-didata a respeito dos mediocres, dos metidos a intelectuais, enfim... Olhava para o compositor, com seus cabelos brancos despenteados, para a pianista concentrada naquela partitura curiosa... "Pra quê partitura?" Pensei revoltada. Mas depois eu retornei às minhas observações e fiquei ainda mais confusa.
Cheguei em casa e, enquanto pegava um copo d'água na cozinha, ouvi um som interessante. Ritmado, agudo. Surtei. Era minha mãe batendo a colherinha no copo de vidro, raspando o finalzinho do yogurte. Lembrei da nova Marcella, dizendo que passou a prestar atenção a todos os sons. Não tive dúvidas:
Ou eles são tão geniais que o comum do povo não acompanha, ou são é muito doidos!!!

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